É possível Inteligência artificial? Alan Turing

O artigo seminal de Alan Turing, muito citado como “Teste de Turing” denomína-se “Computing Machinery and Intelligence” (1) e a seção 1 tem o título de “O Jogo da Imitação”. É uma pena que a maioria de quem o cita nunca tenha estudado com seriedade seu conteúdo. O artigo foi publicado em 1950 como uma análise profunda considerando o que ele chamou de “Main question“: “The new problem has the advantage of drawing a fairly sharp line between the physical and the intellectual capacities of a man“. A versão simplificada, apenas uma pálida representação de um teste, é muito limitativa e simples, o artigo inicial é de uma grande profundidade filosófica. Considero que a leitura dos artigos fundamentais é essencial para estudos de nível aprofundado. Chamo a atenção para a seção 6 deste artigo, ali estão apresentadas as nove “Contrary Views on the Main Question“. Algumas das questões são anteriores ao artigo, pois tratam da capacidade intelectual e da autoconsciência, outras – mais recentes – continuam em debate. Ele listou nove objeções que cito em inglês: (1) The Theological Objection; (2) The Head in the Sand Objection; (3)  The Mathematical Objection; (4) The Argument for Consciouness; (5) Arguments from Various Disabilities; (6) Lady Lovelace’s Objection; (7) Argument from Continuity in the Nervous System; (8) The Argument from Informality and Behaviour; e (9) The Argument from Extra-Sensory Perception. Cada uma destas objeções é descrita em detalhe no texto de Turing e devem ser estudadas no original.


A seguir procuro resumir algumas objeções em discussão na Filosofia da Ciência como sugestões para o estudo:

  • A objeção da consciência: a simples execução de um programa por uma máquina não implica em consciência. Questiona-se uma máquina poderia realmente ter experiências subjetivas e consciência, como os seres humanos.
  • A objeção da criatividade: se uma máquina seria capaz de criar de forma genuína, ou se ela estaria apenas seguindo algoritmos pré-determinados e regras fixas, sem a capacidade de verdadeiramente inovar ou gerar ideias novas.
  • A objeção da emoção: se as máquinas seriam capazes de experimentar emoções, sentimentos e estados afetivos genuínos, ou se suas respostas emocionais seriam apenas simulações baseadas em programação.
  • A objeção da variação no comportamento humano: a definição de inteligência poderia variar entre diferentes culturas, épocas e contextos sociais. Questiona-se uma máquina poderia se adaptar e responder adequadamente em todas essas situações diversas.
  • A objeção da aprendizagem: se uma máquina seria capaz de aprender e adquirir novos conhecimentos de forma autônoma, ou se ela estaria limitada a operar apenas com base em instruções predefinidas.
  • A objeção da intuição: se uma máquina poderia ter um tipo de “intuição” ou compreensão subjetiva que não pode ser expressa em termos de algoritmos e cálculos.
  • A objeção da autopreservação: se uma máquina teria a capacidade de tomar decisões para preservar sua própria existência e bem-estar, como os seres vivos fazem.
  • A objeção da originalidade: se uma máquina seria capaz de criar algo genuinamente novo e original, em vez de apenas recombinações de informações já existentes.
  • A objeção da diferença entre máquina e humanos: as máquinas e os seres humanos têm naturezas diferentes, e, portanto, poderiam ter formas distintas de inteligência, dificultando a comparação direta entre eles.

Essas críticas, atualmente em discussão, constituem um estudo abrangente de desafios que se mantém vivos ao longo das décadas. Elas condensam a profunda reflexão necessária ao abordar a tarefa de criar máquinas com uma inteligência que se equipare genuinamente à humana. Cada uma dessas objeções destaca a complexidade intrínseca e as nuances envolvidas na tentativa de replicar a cognição e a compreensão humanas em um contexto artificial. Este é um terreno de investigação onde as fronteiras entre o biológico e o artificial se entrelaçam em um desafio intelectual sem precedentes. Estas questões ultrapassam as barreiras da computação e entram no âmbito filosófico mais profundo, levantando questões sobre a natureza da mente, da consciência e da própria essência da inteligência. Portanto, permanecem como itens fundamentais de debate tanto no campo da inteligência artificial quanto na filosofia da mente, suportando um diálogo essencial e enriquecedor sobre o futuro da interação entre humanos e máquinas.


(1) Turing, A. M. (1950). Computing machinery and intelligence-AM Turing. Mind, 59(236), 433.

(Acessos 494)