
A doença da pressa ou síndrome da pressa é uma doença psicológica causada principalmente pelo ritmo frenético onde a sociedade moderna se submete nas zonas urbanas e no trabalho. A síndrome não tem reconhecimento médico nem psicológico factível, mas é estudada desde a década de 1980. O aumento excessivo de ansiedade é o principal fator que causa a síndrome da pressa. Doença da pressa – Wikipédia
Nossa vida não é mais vida, é uma corrida sem fim para um lugar incerto, a única certeza é que a morte nos espera no fim do caminho. Será que a Qualidade é resultado desta corrida desenfreada? Será que o melhor que existe no mundo é o fast-food ou será que um slow-food não é muito melhor? Será que a qualidade consiste em publicar inúmeras variações sobre um mesmo tema ou consiste em elaborar um trabalho denso e criativo? Um trabalho de toda uma vida que permitiu a redação de um clássico como o livro O Senhor dos Anéis, de Tolkien, seria considerado um absurdo de perda de tempo do ponto de vista desta corrida desenfreada.
Avaliei um artigo internacional sem revisão anônima e, como sempre faço nestes casos, realizei uma busca na Web para encontrar as demais publicações do autor. Hoje existe uma enorme pressão para avaliar os pesquisadores por suas publicações e, muitas vezes, pela quantidade delas. Esta pressão leva muitas pessoas a uma atitude que chamo de “mass publication process”, onde o mesmo conteúdo é maquiado para parecer diferente, sendo publicado várias vezes. Por isto, um revisor responsável precisa verificar o grau de originalidade de um artigo antes de emitir um parecer conclusivo. Fiquei impressionado pela quantidade de publicações encontradas daquele autor nos últimos dois ou três anos! Analisando com mais cuidado, descobri que em somente uma conferência ele tinha 7 publicações registradas no DBLP, 6 em outra e 5 em uma terceira. Ao analisar os artigos, deu para ver que, agregados os de cada conferência, dariam um artigo adequado e denso. Como os artigos foram estrategicamente distribuídos para vários workshops associados e para a conferência principal, acabaram sendo aceitos. Será que este pesquisador é melhor por ter 18 artigos nestas conferências, além de mais umas 12 variações sobre o mesmo tema, do que seria se tivesse publicado dois ou três artigos densos em vez de 30 pontuais tratando, maquiadamente, do mesmo assunto?
Este é o resultado da famosa frase “publish or perish” (publique ou pereça) tão em voga em universidades dos EUA. Foi lá que surgiu aquela ideia de que a quantidade de informação duplica a cada dois anos; se isto fosse verdade, teríamos duplicado o conhecimento da humanidade em dois anos. É claro que saber quantos sanduíches foram vendidos em cada lanchonete de uma cadeia de fast-food espalhada pelo mundo não pode ser considerado aumento de informação. O que quero mostrar é que quantidade de dados e quantidade de conhecimento são coisas muito diferentes. Certamente isto não é uma regra geral para todo aquele país, mas é uma consequência da ideia geral de que a qualidade só é obtida por uma concorrência impiedosa e contínua e não por um processo estável e consciente de cooperação.
Parece que a mania dos nossos vizinhos do norte de competir numericamente em qualquer coisa está criando situações bizarras ou de real loucura. Notem que sou um defensor ferrenho da qualidade na academia, nas universidades o critério único deveria ser a meritocracia. Sempre tenho escrito e defendido a qualidade do trabalho de pesquisa e acho, que nas universidades de pesquisa, a publicação é a forma principal de avaliação externa da qualidade. As patentes são outro indicador, mas aí precisamos de outra discussão sobre a privatização do conhecimento. O problema é “como avaliar a qualidade”? A forma tradicional é pelo número de citações feitas para uma determinada publicação.
O “academic reward system” ou sistema de reconhecimento da qualidade do trabalho de pesquisa utilizado pela comunidade acadêmica baseia-se, além do bom processo de revisão pelos pares, na qualidade dos meios em que um pesquisador consegue publicar seus artigos. A suposição é que, considerado o número de citações a estes trabalhos realizadas por outros pesquisadores, teremos um bom indicador da importância de um trabalho. Estes elementos estão correlacionados e definem o fator de impacto de uma publicação. Aqui aparecem dois graves problemas: a obtenção destes fatores e a suposição de que a popularidade (número de citações) é indicador de qualidade.
Como se trata de um trabalho imenso, sobretudo em eventos científicos de grande porte, muitos dos quais recebem mais de 20.000 submissões por edição, como ocorre em algumas das principais conferências internacionais de áreas como inteligência artificial e ciência da computação, o processo de avaliação e triagem tem sido frequentemente realizado por organizações privadas com fins lucrativos. Essas entidades assumem a gestão editorial, a infraestrutura de submissões e o suporte técnico, criando um ambiente no qual o volume massivo de artigos acaba justificando a centralização do processo em instituições que operam comercialmente.
Por outro lado, as publicações de editoras mais conhecidas e com maiores recursos econômicos são muito mais divulgadas, distribuídas e vendidas, o que naturalmente aumenta sua visibilidade e, portanto, sua taxa de citações. A dependência dos serviços de indexação mais populares, que requerem muitas vezes pagamentos, assinaturas ou acordos institucionais, acaba produzindo um cenário no qual a avaliação de qualidade científica se torna, direta ou indiretamente, consequência da disponibilidade de recursos financeiros.
Assim, mesmo que um excelente artigo seja publicado, por exemplo, em uma página pessoal de um pesquisador e gere uma abundância de trabalhos derivados, discussões acadêmicas e referências em outros ambientes on-line, ele não aparecerá nos principais indexadores caso não esteja vinculado a plataformas reconhecidas ou pagas. Esse mecanismo reforça desigualdades no ecossistema científico, dificultando a visibilidade de pesquisas relevantes que não passam pelos canais tradicionais ou economicamente privilegiados.
Por outro lado, o segundo problema: Popularidade x Qualidade é de solução muito mais difícil. É claro que ambos os problemas estão interligados. Todos conhecemos produtos inúteis ou de qualidade alimentícia deplorável que são top de popularidade. Leiam isso:
A revista Science publicou em 2012 aquela que, na opinião de seus editores, foi considerada a pesquisa do ano de 2006, a solução da Conjectura de Poincaré pelo matemático russo Grigori Perelman. Pelo critério do “impacto”, Perelman e sua pesquisa não existem. Autor e obra são ausentes na base ISI. Parodiando os advogados, “fora do ISI, fora do mundo” 1 .
A hipótese central desta crônica sustenta que “é possível enganar poucos por muito tempo e muitos por pouco tempo, mas é impossível enganar todos por todo o tempo”. Aplicada ao contexto acadêmico, essa premissa indica que a estratégia de produzir um número excessivo de publicações, frequentemente utilizada para criar uma aparência artificial de produtividade, pode enganar alguns avaliadores ou instituições em um primeiro momento, mas não se sustenta como indicador genuíno de qualidade no longo prazo.
Nesse sentido, a consolidação de um sistema mais robusto de avaliação científica exige a coleta sistemática de dados e o emprego de métodos de Inteligência Competitiva, de modo a permitir uma apreciação mais consistente e realista da trajetória de um pesquisador. Torna-se, portanto, necessário redefinir profundamente os critérios que tradicionalmente associamos à qualidade acadêmica.
Idealmente, almeja-se um modelo avaliativo que considere o conjunto da obra de um pesquisador ao longo de toda a sua carreira, mediante parâmetros holísticos e contextualizados. A quantidade de publicações e a pressão por produtividade acelerada não constituem indicadores confiáveis de excelência científica. Em contraste, um percurso intelectual coerente, compatível com o tempo de maturação das pesquisas, aliado à qualidade dos resultados obtidos e ao impacto formativo de suas orientações, revela-se muito mais adequado do que qualquer índice comercial de impacto para aferir mérito acadêmico.
Se conseguirmos redefinir nossos parâmetros de avaliação, talvez os pesquisadores poderão deslocar o foco do mero cumprimento de metas anuais de publicação para o desenvolvimento consistente de projetos acadêmicos de longo prazo, orientados para a contribuição efetiva a um futuro melhor. Caso contrário, permaneceremos presos a uma corrida estéril e interminável, ou melhor, não tão interminável assim, pois o término é inevitável e a Velha Senhora, em sua silenciosa paciência, sempre nos aguarda.
- a expressão original parodiada é algo como “fora do processo, fora do mundo [↩]



