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Há algum tempo enviei uma
mensagem para a lista da Sociedade Brasileira de Computação
sobre as carreiras na Universidade, o objetivo era fazer uma
provocação e coletar opiniões sobre o assunto. Recentemente,
também, coloquei estas duas páginas
no
Facebook:
Número de
instituições de ensino superior diminui pela 1º vez em 5 anos
e Ensino superior tem
quase 1,5 milhão de vagas ociosas
- algo está mudando e precisamos repensar muito o nosso modelo
de Universidade Pública. Na semana passada, com a publicação do
resultado das duas primeiras fases do novo sistema de acesso às
Universidades Federais, ficou evidente que há mais vagas
disponíveis do que candidatos com condições de ocupá-las. Depois
da postagem recebi muitas contribuições aos autores das quais
gostaria de agradecer. Esta crônica é o resultado da mensagem
inicial muito enriquecida com as contribuições recebidas.
A conseqüência clara é que passamos e passaremos a
receber um público muito menos preparado e somos obrigados a
repensar o modelo de Universidade. Claro que a solução deve ser
a qualificação do ensino anterior à Universidade, mas isto é um
logo caminho. Além disto há problemas sócio-econômicos que devem
ser enfrentados, porque tantos pensam que a Universidade é o seu
caminho de realização profissional? Porque muitos não preferem
carreiras técnicas com retorno mais rápido e muitas vezes mais
rentável? Há cerca de três anos toquei neste assunto na crônica
Para que Diploma? (Nov 06). Agora com a enorme série de
concursos no ano que vem nas Federais precisamos definir que
carreiras precisamos, talvez seja tarde para isto mas a
discussão é necessária para o futuro.
Como início do
debate creio que devemos
ter duas linhas distintas na carreira: os professores ligados ao ensino e à
sua qualidade, essenciais para este novo público, e os
professores pesquisadores, para uma parcelas dos alunos que
seguirão a pesquisa e formação pós-graduada. Pensarmos em uma
Universidade somente Humboldtiana ( o princípio da idéia
humboldtiana de universidade é a famosa “unidade
indissolúvel do ensino e da pesquisa”) me parece inatingível nas
condições atuais. Concordo com a indissociabilidade entre
ensino, pesquisa e extensão na Universidade , mas creio que isso
deveria ser aplicado de forma coletiva, ao curso ou
departamento, e não a cada indivíduo isoladamente. Deve haver
espaço para pesquisadores brilhantes e professores excelentes
atuando juntos, de forma complementar.Talvez devêssemos ter concursos para
professores-pesquisadores e outros para professores-professores.
Vale a pena fazer somente concursos com critérios de seleção
para professores-pesquisadores se na teremos candidatos
suficientes com este perfil, e com qualidade? Ficaremos com
pessoas por 30 anos num perfil errado? Não seria melhor termos
algumas vagas para bons professores-pesquisadores e outras para
bons professores-professores? O assunto é quente e merece
discussão.
Esta frase
do Nizam é exemplar:
"Há quase um ano, pelo menos três vezes por semana,
atravesso um trecho da Av. paulista a pé, quando tenho a
oportunidade de notar as diferentes feições, indumentárias e
comportamentos dos transeuntes. Recentemente passei a tentar
ver as similaridades e surpreso ví mais diversidades do que
via antes e me alegrei, pois concluí que o Ser Humano apesar
de poder ser definido ontologicamente, não existem espécimes
similares são todos distintos".
Mais recentemente recebi
uma referência para um artigo na Folha de São Paulo de 6 de
janeiro de Adalberto Fazzio e Sidney Jard Da Silva sobre a "Universidade
do Século 21" onde aparece esta citação de Max Weber que me
deixou muito satisfeito, por compartilhar da mesma idéia:
"No início do
século passado, o renomado sociólogo alemão Max Weber
observou que somente por acaso se poderia encontrar em um
mesmo homem as vocações de cientista e professor. Apenas em
situações fortuitas teríamos a felicidade de entrarmos em
uma sala de aula e depararmos com o acadêmico igualmente "vocacionado"
para o ensino e para a pesquisa".
A seguir escrevem os
autores:
"O dilema weberiano
ainda angustia aspirantes e mestres de diversas áreas do
conhecimento. De um lado, estudantes decepcionados por não
compreenderem o brilhantismo dos seus
professores-pesquisadores. De outro,
pesquisadores-professores amargurados por não conseguirem
transmitir seus conhecimentos para diligentes alunos".
É exatamente o ponto que
toquei. Há uma forte corrente, inclusive de colegas e bons
amigos aqui da UFRGS, que quase me bateram por propor a
separação das duas categorias, agora com o apoio de Max Weber me
sinto melhor!
Outra contribuição trouxe
ao debate a necessidade de integração com o mercado:
"As avaliações do
MEC também cobram muito a "inserção de mercado", "a
realidade regional". Considerando esse e outros aspectos,
independentes de quem nos avalia ou como somos avaliados, o
aluno precisa sim dessa visão inovadora, do estado-da-arte,
mas precisa muito da visão EMPREENDEDORA, da visão
PRAGMÁTICA do dia-a-dia profissional. Desculpem-me, mas há
muitos professores-pesquisadores que não conseguem apesar do
vasto, profundo e detalhado conhecimento de sua área, trazer
isso para o aluno. Do contrário, porque o mercado incentiva
tanto os estágios (ou os Internships, como no caso dos EUA)
ou os programas de trainee?"
Me
parece que está claro que há uma necessidade de perfis
diferentes e complementares. Aos poucos esta necessidade está
sendo reconhecida e fiquei muito satisfeito em saber que dois
colegas aqui do II-UFRGS ganharam bolsas de Produtividade
Tecnológica do CNPq.
Sobre
a avaliação em sala de aula:
"Sem querer diminuir a importância da pesquisa ou
inovação em nada, lembro apenas que a pressão e a avaliação
pesam sobre a pesquisa quase exclusivamente. ha, portanto,
incentivo para fazer melhor pesquisa, incentivo para fazer
mais inovação (com empresas), mas nenhum incentivo para
melhorar a qualidade de nossas aulas. só melhorar a pesquisa
e a inovação, não garantem melhores aulas, claro, embora sem
estas duas seja difícil "ensinar" algo interessante nas
aulas".
Parece que está, cada vez mais clara, a percepção que existem
carreiras diferentes, apenas escamoteadas por interesses
conflitantes e pela falta de vontade em aceitar a pluralidade e
as diferenças naturais nos seres humanos.
Algumas contribuições sobre outras Universidades:
"Aqui na Universidade de York onde estou fazendo o
doutorado também propuseram um programa semelhante para
alunos de pós-graduação, com várias atividades similares ao
da Universidade de Waterloo. Os alunos participantes têm até
um "orientador pedagógico" durante o ano que passam no
programa. Mais informações em: http://www.york.ac.uk/admin/hr/training/gtu/pfa/
O que eu achei interessante aqui, entretanto, foi o
tratamento da universidade em relação à qualidade de ensino
dos docentes. O desempenho da universidade no ensino
(avaliado fortemente por meio de feedback dos alunos) conta
muito fortemente na avaliação da universidade, e
conseqüentemente, dos docentes".
Outra
no mesmo sentido:
"Acredito que fui
privilegiada. Durante o meu doutorado na Universidade de
Waterloo no Canadá, eu tive a chance de participar e
concluir um programa que a universidade oferecia aos
estudantes de doutorado intitulado Certificate in University
Teaching.http://cte.uwaterloo.ca/graduate_programs/CUT/index.html"
A
mensagem do Flávio Wagner é o arquétipo da defesa de
professor-pesquisador:
"Numa "universidade de
pesquisa", como na América do Norte e na Europa, todo
"professor" deve ser antes de mais nada um bom
"pesquisador". Deve liderar um grupo de pesquisa, orientar
alunos, conseguir financiamentos, gerar e transferir
conhecimento, interagir com a sociedade através de projetos
diversos. Além disto, ele também deve dar aulas na graduação
e pós-graduação, transmitindo aos alunos conhecimento em
primeira mão. É claro que se espera que ele tenha boa
didática, sabendo transmitir conhecimento e motivar os
alunos. Apenas em casos muito específicos existe a
contratação de pessoas em regime de tempo parcial para
apenas ministrarem aulas. Está muito longe de ser uma regra
comum.
Nestes países, portanto, não existe a dicotomia "professor"
x "pesquisador". A denominação "professor" pressupõe
necessariamente os dois lados da moeda: ensino e pesquisa.
Aliás, quem se dedica apenas ao ensino tem outra
denominação (como "teacher", ou "instructor", em inglês).
Por isto, acho que estamos diante de uma falsa polêmica.
Numa "universidade" que se pretende de pesquisa, no Brasil
como em outros países, todo "professor" deve ser
necessariamente um bom "pesquisador" e também um bom
"educador". Isto não quer dizer que todos consigam
alcançar esta meta. Mas, na América do Norte e Europa, quem
não for um bom "pesquisador" com certeza não terá
sucesso na carreira".
Meu
comentário sobre esta posição é: isto ocorre em todas
Universidades dos USA ou da UE? É possível que todas as
Universidades sejam de pesquisa como Stanford ou de Carnegie Mellon?
Há recursos para isto? Todos os egressos de uma Unoiversidade
devem ser pesquisadores? A seguir outra opinião sobre uma destas
Universidades:
"Aqui
na Carnegie Mellon, um professor-pesquisador precisa ser doutor
enquanto um professor-instrutor precisa no máximo ter o título
de mestre (por exemplo, engenheiros ou cientistas que fizeram
carreira em industrias são freqüentemente
professores-instrutores, pois sabem expor a matéria de forma
clara e objetiva). Um professor-instrutor é freqüentemente
contratado em tempo parcial, pois muitas vezes ele continua
trabalhando em indústrias (IBM, Google, Microsoft, etc.). Esse é
um dos fatores que aumenta a interação academia-industria. Ambas
as carreiras seguem a titulação de professor
assistente/associado/titular (por exemplo, assistant teaching
professor, associate teaching professor no caso de
professor-instrutor). Em termos de salário e prestígio, é claro
que um professor-pesquisador possui maior prestígio e autonomia,
mas em relação ao salário não é muito diferente. O diferencial
aqui é que um professor-pesquisador pode complementar seu
salário fazendo consultoria, e utilizando parte do auxílio
financeiro que paga as despesas com projetos científicos.
Ou seja quanto melhores seus resultados de pesquisa o
professor-pesquisador terá mais projetos financiados e portanto
seu salário será. Quando o projeto é enviado, normalmente é
especificado o quanto será gasto com recursos humanos (quanto os
professores, alunos, programadores, etc., irão receber para
realizar o projeto). Esse modelo é pouco difundido em outros
países, mas ao meu ver é o que faz as universidades americanas
serem o centro de excelência. Quem é bom em pesquisa, faz
pesquisa e quem é bom em ensinar, leciona. Prático e eficaz".
Um
comentário sobre a França:
"Na
França existem três tipos de aulas para uma mesma disciplina:
aulas magistrais, aulas dirigidas e aulas práticas. As aulas
magistrais são ministradas geralmente por professores-titulares
(professeurs) em auditórios, as aulas dirigidas ou aulas
práticas são ministradas por professores adjuntos (Maître de
Conferénces) ou mesmos professores assistente (A.T.E.R) com
turmas menores em salas de aula ou laboratórios. Além disso,
existe a carreira de somente de pesquisador. O sistema funciona
bem".
Concluindo: acredito que
realmente precisamos aprofundar o debate, pela diversidade das
opiniões e pela qualidade de cada argumentação é absolutamente
claro que não ha consenso sobre o assunto. Por outro lado, como
dizia aquele comercial, a mudança na vida real está nos obrigado
a "revisar os
nossos conceitos".
Observação: Esta crônica contém
material enviado como colaboração na lista SBC-l por
Alexandro Adário, André Pimenta Freire, Carlos Maziero, Flávio
Wagner, Geber Ramalho, Nara
Martini Bigolin , Nizam Omar, Seiji Isotani a quem
agradeço pela contribuição e ressalto que o uso destes conteúdos
é de minha inteira responsabilidade não implicando os autores
originais em nenhuma responsabilidade pela minha interpretação
dos mesmos. |