| Crônicas > 025 |
Imortalidade Digital
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Terminei a
penúltima crônica escrevendo que havíamos chegado ao
Incrível Mundo Novo, onde a próxima versão de sistema
operacional não terá mais pastas de arquivos mas prateleiras para
guardar os documentos e se eu colocar um destes documentos na mesa de um colega o
documento lá apareça, se a mesa no virtual corresponder a uma mesa no
real o documento será materializado por meio de uma impressora
integrada na mesa. O mesmo ocorre com a TV em casa ou com o computador,
todos operando com a mesma interface em que o virtual e o real se
confundem. Daqui para a frente não
existirá mais real nem virtual em computação, vamos viver com uma nova realidade expandida,
as possibilidades são imensas: óculos sobrepondo mapas às ruas pelas
quais caminhamos, pára-brisas de carros com informações sobre o
roteiro e avisos de chuva, computadores integrando grupos virtuais com
o espaço físico. Qualquer dia destes nos encontramos no
Second Life, ou quem sabe se em nossos computadores, para discutir estas crônicas, até lá...
Mas ai me lembrei de algo mais, seria possível passarmos a viver
eternamente nos computadores? Logo vieram á mente dois filmes: 2001
Uma Odisséia no Espaço e
Tron, este
último sobre dois programadores que foram absorvidos por um
computador. Mas vamos ao primeiro, que é uma obra-prima baseada em
um livro de Arthur Clarke do qual reproduzo, a seguir, o parágrafo
relevante para esta crônica.
"Agora, em meio às estrelas, a evolução
buscava novos rumos. Aqueles primeiros exploradores da Terra
tinham, há muito, ultrapassado as limitações do corpo de carne e
osso. Assim que suas máquinas se tornaram mais eficientes que os
seus corpos, fora feita a transferência. Em primeiro lugar, os
seus cérebros, depois apenas os seus pensamentos, foram habitar
os brilhantes domicílios de metal e plástico. Nesses novos
envoltórios ficaram perambulando pelas estrelas. Não mais
construíam naves, eles próprios eram as naves. Porém, a
era mecânica passou rapidamente. Através de incessantes
experiências aprenderam a armazenar conhecimentos na própria
estrutura do espaço, preservando suas idéias para a eternidade
em compartimentos de luz congelada. Mutavam-se assim em
criaturas da radiação, livres, e finalmente, da tirania da
matéria. Estavam agora transformados em pura energia. Em mil
mundos, as cascas vazias por eles abandonadas contorceram-se nos
estertores da morte, esfarelando-se e desfazendo-se em ferrugem.
Haviam-se tornado os senhores da Galáxia, insensíveis ao tempo.
Podiam vagar a seu bel-prazer por entre as estrelas, penetrando,
qual neblina, em todos os interstícios do espaço. Entretanto,
apesar dos seus poderes quase divinos, não haviam esquecido
completamente a sua origem, no lodo quente de um oceano
desaparecido".
2001, Uma Odisséia
Espacial, Arthur C. Clarke, Set 1968, I Ed. portuguesa
Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, p. 245.
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O livro de
Arthur Clarke
"2001 Uma Odisséia no Espaço"
e depois o filme de
Stanley Kubrick,
lançado em 2 de Abril de 1968, criaram uma enorme
efervescência cultural. Para muitos as cenas finais do filme
tornaram-se assunto de grandes discussões ao lado do chopinho.
O tempo passou, a tecnologia evolui enormemente mas a qualidade
técnica do filme garantiu a sua durabilidade. Se você ainda
não o assistiu vá logo à sua vídeo locadora! Mas além da perfeição
na projeção das funcionalidades técnicas apresentadas o
livro/filme lançou uma abertura enorme na interpretação do que
pode ser considerado vida. Arthur Clarke continua a discussão do
assunto em uma série de
livros sendo que em "3001
A Odisséia Final" apresenta a explicação, menos esotérica do
que supúnhamos, sobre a transmutação de
David Bowman em um ser imaterial.

| Eu tentei
criar uma experiência visual, que se desviasse do campo das
palavras e penetrasse diretamente no subconsciente com um
teor emocional e filosófico... Projetei o filme para ser uma
experiência subjetiva intensa, que atinja o espectador num
nível profundo de consciência, exatamente como a música
faz... Você está livre para especular como quiser sobre o
sentido filosófico e alegórico do filme.
Stanley Kubrick
(1968) |
Os anos se
passaram, a tecnologia evoluiu, as
grids computacionais se desenvolveram e nós continuamos
morrendo... Até que um dia destes encontrei este artigo na
CACM:
Digital
Immortality1, imaginem em que ano? Claro: de
2001! Imediatamente me lembrei da, agora já antiga, Uma Odisséia
no Espaço,
todas as discussões e interpretações voltaram, mas agora com uma referência
acadêmica.
Alain M. Turing
propôs, em "Computing
Machinery and Inteligence", Mind, 1950, um teste através do
qual seria possível decidir se os estados cognitivos humanos são
manipulação de símbolos. O teste proposto por Turing consistia em
levar a cabo uma experiência com duas pessoas e um computador.
Nesta experiência uma pessoa isolada faz uma série de perguntas
que são respondidas pelo computador e pela outra pessoa. O
computador passa o teste se o indivíduo que faz as perguntas não
conseguir descobrir qual dos interlocutores é a máquina e qual é
humano. O teste de Turing estabelece o seguinte critério para
decidirmos se uma máquina pensa: se o comportamento de uma máquina
for indistinguível daquele exibido por um ser humano, não há razão
para não atribuir a essa máquina a capacidade de pensar.
Transcrevo, a seguir, a primeira seção deste artigo, pois acredito
que muito poucos o leram.
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The Imitation Game
I propose to
consider the question, "Can machines think?" This should
begin with definitions of the meaning of the terms "machine"
and "think." The definitions might be framed so as to
reflect so far as possible the normal use of the words, but
this attitude is dangerous, If the meaning of the words
"machine" and "think" are to be found by examining how they
are commonly used it is difficult to escape the conclusion
that the meaning and the answer to the question, "Can
machines think?" is to be sought in a statistical survey
such as a Gallup poll. But this is absurd. Instead of
attempting such a definition I shall replace the question by
another, which is closely related to it and is expressed in
relatively unambiguous words. The new form of the problem
can be described in terms of a game which we call the
'imitation game." It is played with three people, a man (A),
a woman (B), and an interrogator (C) who may be of either
sex. The interrogator stays in a room apart front the other
two. The object of the game for the interrogator is to
determine which of the other two is the man and which is the
woman. He knows them by labels X and Y, and at the end of
the game he says either "X is A and Y is B" or "X is B and Y
is A." The interrogator is allowed to put questions to A and
B thus: C: Will X please tell me the length of his or her
hair? Now suppose X is actually A, then A must answer. It is
A's object in the game to try and cause C to make the wrong
identification. His answer might therefore be: "My hair is
shingled, and the longest strands are about nine inches
long." In order that tones of voice may not help the
interrogator the answers should be written, or better still,
typewritten. The ideal arrangement is to have a teleprinter
communicating between the two rooms. Alternatively the
question and answers can be repeated by an intermediary. The
object of the game for the third player (B) is to help the
interrogator. The best strategy for her is probably to give
truthful answers. She can add such things as "I am the
woman, don't listen to him!" to her answers, but it will
avail nothing as the man can make similar remarks. We now
ask the question, "What will happen when a machine takes the
part of A in this game?" Will the interrogator decide
wrongly as often when the game is played like this as he
does when the game is played between a man and a woman?
These questions replace our original, "Can machines think?" |
Onde este teste se
conecta com a Imortalidade Digital? É fácil, se for possível transferir
a mente de uma pessoa para um computador e se este computador responder
de tal forma as interações com outras pessoas de forma que seja
impossível distinguir a pessoa original e a sua versão computacional
podemos dizer que a mente desta pessoa passou a ser imortal, tal como a
citação inicial sobre a transferência das mentes dos primeiros
exploradores da Terra para as suas máquinas.
o jornal The New
Yorker apresenta uma
seção (em inglês) muito interessante sobre um projeto para registrar
tudo em uma vida. Com o aumento da capacidade de armazenamento de dados
e com a enorme redução de custos chegamos perto da possibilidade de
registrar todos os estímulos visuais, acústicos e outros a que somos
submetidos ao longo da vida. Podemos, também, registrar todas as nossas
palavras, opiniões artigos, fotos etc. Por exemplo, para registrar tudo
o que uma pessoa ouviu durante sua vida seriam necessários menos do que
um terabyte de armazenamento [1]. Com uma boa máquina de inferência
seria possível que o sistema oferecesse exatamente as mesmas respostas
que nós ofereceríamos a um determinado estímulo, isto não é a
Imortalidade Digital?
Neste cenário uma
pessoa poderá interagir com as futuras gerações e incluir novos
conhecimentos, se adicionarmos aprendizagem de máquina ao ambiente
nossos personagens virtuais poderão evoluir e criar uma competência
extrema. Estes "avatares" seriam os seres de inteligência
pura do 2001. Eles poderiam interagir conosco através das interfaces
normais dos computadores atuais e, ainda mais, em interfaces no estilo
do Second Life, imaginem interagir com avatares inteligentes que
tenham incorporado o conhecimento de um grande cientista, filósofo ou
artista?
Para ampliar as
idéias apresentadas aqui sugiro a visita a esta
página da CMU, em breve teremos avatares autônomos em nossos mundos
e, mais tarde, poderemos interagir com personalidades falecidas.
1
Digital Immortality. Gordon Bell, Jim Gray.
Communications of the ACM,
Volume 44 , Issue 3 (March
2001) Pages: 28 - 30 ISSN:0001-0782
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