| Crônicas > 024 |
Tecnólogos, bacharéis,
mestres etc.
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Recentemente ocorreu (e está
ocorrendo) uma discussão na lista da SBC sobre curso de tecnólogos.
Resolvi organizar algum material que tenho sobre cursos e objetivos. A
discussão é preocupante pois está muito centrada em eventuais
direitos de candidatos em concursos públicos. O tema central e
substantivo deveria ser: qual o objetivo de cada modalidade de curso?
Certamente estamos com um problema no ensino da computação, já em
agosto de 2006, escrevia uma crônica sobre o assunto:
A crise no ensino da
computação.
Uma pergunta que surge na mente
dos alunos de pós-graduação é: E
agora o que vou fazer? Essa é uma pergunta que todo aluno de
graduação, mestrado e doutorado se faz, pelo menos uma vez por semana.
Escrevi uma crônica tratando deste problema:
A
pós-graduação em computação e a indústria
(Set 06). Há uns 10 anos atrás, 90% das pessoas que faziam mestrado e/ou
doutorado queria seguir carreira acadêmica.
Mas hoje tudo mudou:
- Formamos mais mestres e doutores do que o
mercado de ensino pode e quer absorver
- Nem todo mestrando/doutorado quer ser
professor
- Grandes empresas entenderam que a formação de
pós-graduação traz consigo um diferencial importante
- Grandes empresas americanas e européias
aprenderam que formamos profissionais de alta competência e tem
vindo recrutar diretamente aqui
- O mercado sabe que uma empresa de tecnologia
só terá lucro se aportar um diferencial realmente significativo
- Só aporta diferencial quem sabe. Poucos
nascem iluminados. A maioria aprende a fazer.
- Se você quer ter uma carreira
acadêmica sugiro a leitura da crônica:
Escolha um bom
orientador e tenha futuro! (Fev 07)
Por outro lado os
cursos de graduação são vistos no Brasil como sendo equivalentes, isto
não é verdade. Os objetivos são distintos e o pior é que estes
objetivos são normalizados há muito tempo e nós, solenemente, não
tomamos conhecimento. A Norma Internacional para a
Classificação de Educação foi projetada pela
UNESCO no início da
década de 70 para servir como um instrumento adequado para recolher,
compilar e apresentar estatísticas educacionais para os países e para
a comunidade internacional. Esta norma foi aprovada pela
International Conference on Education (Genebra, 1975) e foi,
subsequentemente, confirmada pela General Conference da
UNESCO em Paris, 1978, quando foi adotada a Revised Recommendation
sobre a International Standardization of Educational Statistics.
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Os níveis considerados são:
Level 0 -
Pre-primary education
Level 1 - Primary education or first stage of basic education
Level 2 - Lower secondary or second stage of basic education
Level 3 - (Upper) secondary education
Level 4 - Post-secondary non-tertiary education
Level 5 - First stage of tertiary education
Level 6 - Second stage of tertiary education
International Standard
Classification of EducationI S C E D 1997
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Educação Superior
(Educação terciária, ISCED 5-6)
Programas Educacionais
em Nível Universitário (Terciário tipo A, ISCED 5A) são
fortemente baseados em teoria e planejados para oferecer
qualificação suficiente para a entrada em programas avançados de
pesquisa e em profissões com altos requisitos de competências como
medicina, odontologia ou arquitetura. Programas terciários do tipo
A têm uma duração mínima de três anos em tempo integral apesar de
durarem, tipicamente, quatro ou mais anos. Estes programas não são
oferecidos exclusivamente por universidades. Inversamente nem
todos os programas reconhecidos nacionalmente como programas
universitários preenchem os critérios para serem classificados
como terciários do tipo A.
Programas Educacionais
Vocacionais Avançados (Terciários tipo B, ISCDE 5B) Estes
programas são tipicamente mais curtos que os terciários do tipo AQ
e focados em competências práticas, técnicas ou ocupacionais para
a entrada direta no mercado de trabalho apesar de que algumas
fundamentações teóricas possam ser cobertas pelos respectivos
programas. Estes programas têm uma duração mínima de dois anos com
dedicação exclusiva.
Qualificação Avançada
de Pesquisa (ISCDE 6) Este nível corresponde aos
programas que levam diretamente para um título de qualificação em
pesquisa avançada como Ph.D. A duração destes cursos é de três
anos em dedicação exclusiva na maioria dos países atingindo um
total de sete anos de dedicação exclusiva no nível terciário
apesar de o tempo de matrícula ser tipicamente mais longo. Estes
programas são dedicados para estudo avançado e pesquisa original..
Programas Educacionais
Pós-secundários não Terciários (ISCDE 4) Estes programas
se sobrepõem à fronteira entre o secundário superior e a educação
pós-secundária na definição internacional. Os mesmos podem ser
classificados como secundário superior ou pós-secundário em
diferentes países. Apesar do seu conteúdo não ser
significativamente mais avançado do que os programas secundários
superiores eles servem para ampliar o conhecimento adquirido pelos
participantes no secundário superior. Os estudantes matriculados
tendem a ser mais velhos do que os matriculados no nível
secundário superior. |
Fica bem claro que
os propósitos das diferentes modalidades são diferentes, uns tendem
para a carreira acadêmica ou de pesquisa e outros para a inserção
direta no mercado de trabalho. Os tecnólogos são Programas Educacionais
Vocacionais Avançados e têm por objetivo a inserção
direta no mercado - ISCDE 5B. Não é correto esperar que os egressos
destes cursos tenham as mesmas qualificação que os de cursos Programas Educacionais
em Nível Universitário - SCED 5A. Isto não quer dizer que
as formações sejam superiores ou inferiores e sim que são diferentes!
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Esta diferenciação
surge, em paises com mais tradição de qualidade de ensino, em etapas
anteriores da formação, isto ocorre, por exemplo, na Alemanha e na
Holanda.
Holanda
Educação Elementar
As crianças holandesas vão à escola desde os 4 até
os 12 anos. Durante estes oito anos recebem uma
educação orientada para o desenvolvimento emocional,
intelectual e criativo de forma a obterem, ao final, um
conjunto adequado de habilidades para o convívio social.
Educação secundária
Após os 12 anos há várias opções:
-
Educação
vocacional preparatória (VBO)
-
Educação
geral básica secundária (MAVO): estes dois tipos de educação levam
quatro anos e dão acesso à educação vocacional (profissional)
-
Educação
geral avançada secundária (HAVO): um curso de cinco anos que permite
aos alunos que o concluírem com sucesso partirem para a educação
profissional superior;
-
Educação
pré-universitária (VWO): curso de seis anos que habilita aos
bem-sucedidos entrar na universidade.
Educação superior
A educação superior compreende a educação
profissional superior (HBO) e a educação acadêmica
(WO) oferecida por colleges e universidades.
Estes cursos têm a duração de quatro anos.
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Acho que estes
dados devem ajudar na discussão, o problema, em meu ponto de vista,
é a confusão no entendimento dos objetivos dos diferentes modelos de
cursos. Como havia escrito em crônica sobre a crise do ensino da
computação:
| Para começar uma pequena
história. Quando me formei, em Engenharia Elétrica, alguns colegas passaram em um
concorridíssimo concurso de seleção para um curso de
programação oferecido pela IBM. Dois deles, contratados
após os meses de curso foram os exemplos para a turma.
Se me lembro bem o curso consistia, essencialmente, de programação
assembly, uma
linguagem de programação e conhecimentos de sistemas de
arquivos. Eles eram considerados os "sortudos"
da turma pois ganhavam muito mais que um engenheiro em
início de carreira, e o status! Sempre estavam
com impecáveis fatiotas e engravatados. Pois é, o tempo
passou, a sociedade mudou. Neste período os computadores
passaram de máquinas quase inacessíveis, só os
iniciados podiam entrar nas salas de sistema, e
caríssimas para commodities compradas em qualquer supermercado. Eu
acreditava que quando uma nova geração, criada com
acesso aos computadores desde a infância, chegasse à
universidade teríamos ótimos e motivadíssimos alunos.
O que ocorreu? O inesperado: a familiaridade com
computadores tirou o glamour da profissão e a
crise do mercado não estimula uma perspectiva de
carreira vitorio$a. Algumas perguntas
que tenho ouvido: O que vou fazer que já não esteja
disponível? Que empresas brasileiras são competidoras
mundiais? E aí, vou trabalhar fazendo programas para o
boteco da esquina? No outro extremo da carreira está
ocorrendo uma "caça aos doutores", ao inverso,
pois muitas Universidades e Centros
Universitários estão
despedindo o pessoal com maior titulação para contratar
"mão de obra" mais barata. Isto não é uma
decisão míope mas sim uma decisão forçada por um
público que não consegue pagar cursos de melhor
qualidade, é reduzir custos ou fechar. É triste! Por
outro lado há os cursos de "baixo
custo" e "baixa tarifa", como aquelas linhas aéreas que servem
pacotinhos de amendoim em vôos de quatro horas. O pior
é que há pessoas que pensam que aquelas belas
propagandas em outdoors de cursos de "baixa
tarifa" são uma alternativa de trabalho
profissional e e sonham com a ascensão social oferecida
por estes diplomas. Bem, terão um lindo diploma, talvez
colorido e dourado, para colocar na parede. A
competição, hoje, está baseada em critérios mundiais,
não adianta ter um título universitário é preciso ter
alta competência para ter alguma chance de sucesso.
Olhem os resultados do ENADE deste ano (2006), só 19 cursos de Ciência da
Computação que conseguiram a nota máxima (5)
entre os 685 registrados no site do MEC. |
Resumindo: Há
diferentes tipos de formação, em cada tipo de formação há cursos bons,
médios e ruins. Não faz sentido tentar comparar bons cursos de
tecnologia com maus cursos de bacharelado, ou vice-versa, os objetivos
são diferentes. Quanto aos concursos o que deve-se esperar é que
especifiquem realmente as competências necessárias para o cargo. A
solução para o desenvolvimento não é a discussão sobre os direitos
legais de cada um mas a luta pela avaliação correta dos cursos
e seu enquadramento explícito nas normas internacionais.
A saída de
mercado é o oferecimento de cursos em diferentes níveis
e com diferentes objetivos. As Universidades, em seus
cursos acadêmicos, precisam oferecer qualidade
científica, pesquisa, desenvolvimento de pesquisa
aplicada e professores de alto nível, este deve ser o
ponto central dos esforços de qualificação e da
propaganda institucional. Para mais informação sobre este assunto leia:
As Universidades brasileiras
são competitivas?
(Dez
2006)
Outros cursos podem ter foco na
formação direta para o mercado, no treinamento. Além
disto, organizações paralelas podem oferecer incentivos e treinamento para que os
alunos com inovações, resultantes de sua ótima
formação, e vontade de empreender no mercado comercial
sejam mais qualificados para o fazer. Mas é essencial ressaltar que
existem diferentes formações e que os egressos desta formações
diferenciadas têm competências diferentes. Certamente pode haver
migração entre formações, mas isto requer um esforço pessoal alto e
muita dedicação.
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