| Crônicas > 023 |
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Second Life:
esquizofrenia, alienação ou realidade?
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Um dia destes eu
vinha para a Universidade e escutei uma propaganda no rádio de uma
empresa se propondo a criação de locais no
Second Life para que organizações do mundo real passassem a
ter seu espaço naquele mundo virtual. Cheguei na Universidade e um
colega me comentou sobre uma aula virtual interessante que ele havia
acompanhado (como um
avatar) no Second Life, em uma ótima universidade dos
Estados Unidos. No almoço alguém falava sobre ter encontrado uma amiga
no Second Life (SL). Parece que algo virtual está acontecendo nas
vidas das pessoas ou seria um comportamento de fuga criando uma
segunda vida sem os problemas da vida real? Eu tinha uma
tendência a pensar no SL como uma forma branda de
esquizofrenia:
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A
esquizofrenia é uma
doença mental
grave que se caracteriza classicamente por uma coleção de
sintomas,
entre os quais avultam alterações do
pensamento,
alucinações
(sobretudo auditivas),
delírios,
embotamento emocional, com perda de contacto com a realidade,
causando, talvez, um disfuncionamento social crônico. (Wikipedia)
Mas talvez esta
interpretação fosse muito exagerada. Quem sabe se a SL não
fosse algo tão sério, mas sim uma forma de
alienação, de afastamento da realidade, com a fuga dos problemas ou
de tentativa de fuga das responsabilidade de um sistema opressivo.
-
Alienação.
Processo que deriva de uma ligação essencial à ação, à sua
consciência e à situação dos indivíduos, pelo qual se oculta ou se
falsifica essa ligação de modo que o processo e os seus produtos
apareçam como indiferentes, independentes ou superiores aos homens
que são, na verdade, seus criadores. No momento em que a uma pessoa
o mundo parece constituído de coisas – independentes umas das outras
e não relacionadas – indiferentes à sua consciência, diz-se que esse
indivíduo se encontra em estado de alienação. Condições de trabalho,
em que as coisas produzidas são separadas do interesse e do alcance
de quem as produziu, são consideradas alienantes. Em sentido amplo
afirma-se que é alienado o indivíduo que não tem visão – política,
econômica, social – da sociedade e do papel que nela desempenha. (Dicionário
de Sociologia)
Depois comecei a
achar que estava sendo muito reacionário, será que não havia algo mais
no SL que justificasse toda esta atividade
e adesão. Mas o que seria? Como início do estudo achei que o caminho
seria pensar no SL como um sistema de informação distribuído,
espécie de Web 2.0. Resolvi
ver o que tinha de material interessante nas minhas aulas de
Sistemas de Informação.
Naquele curso explico as diferentes formas de
interação de sistemas de informação com a realidade. Por este critério
os sistema
de informação podem ser
classificados em: Modelo de Componentes, Modelo de Informações
Dinâmicas e Modelo de Controle.
Modelo de Componentes
Os componentes são os objetos sendo trabalhados. São dinâmicos,
inertes independentes. A sua natureza dinâmica é elementar como, por
exemplo: colocar o caractere a na posição {24,32}. Os eventos
no domínio dos componentes só ocorrem se iniciados externamente. As
solicitações de operações são feitas pelos usuários da máquina para
serem executadas pelos componentes. A função do desenvolvedor é a de
construir uma máquina que que conecte o domínio de solicitações ao
domínio dos componentes de forma a que os requisitos sejam
satisfeitos. Nesta categoria podem ser incluídos os editores de texto
e as ferramentas de modelagem espacial. O importante é que
"A realidade é um modelo interno ao sistema e esta representação é modificada exclusivamente por ações dos usuários".
Estes sistemas são
completamente isolados da realidade, apenas a descrevem por
intermédio dos usuários.
Modelo de Informações Dinâmicas
O
sistema é a máquina a ser construída. O mundo real é o domínio sobre
o qual as informações são solicitadas. Este é um domínio autônomo e
independente, completamente isolado do comportamento do sistema. O
sistema é afetado pelo mundo real pois possui algum modelo interno
que representa o domínio de forma a poder gerar as informações de
saída. O mundo real não é reativo, isto é, não reage ao
comportamento do sistema. Esta classe de sistemas representa uma
realidade externa quer seja por meio de dados entrados pelos
usuários quer seja por meio de sensores que registram valores
obtidos da realidade.
Modelo de Controle
Nesta
classe de problema estão aqueles que devem ser controlados pela
máquina, agora denominada controlador. O domínio controlado é ativo
e reativo. Isto é causa eventos e muda de estado espontaneamente e
inicia outros em função dos estímulos do controlador. O controlador
tem por função manter o domínio controlado dentro de um
comportamento desejado. O controlador possui um modelo completo da
parcela da realidade a ser controlada de forma a saber como agir em
função das mudanças de estado no sistema real. Neste modelo o
sistema controla a realidade.
Mas o SL não
se enquadra em nenhum destes modelos. Em uma primeira análise rápida
poderia parecer que é um sistema do primeiro tipo, algo que só existe
dentro do computador. Mas então qual o motivo de empresas estarem
colocando sites neste mundo virtual? Então li um artigo "O
virtual não se opõe ao real" de Juremir Machado da Silva,
publicado no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, dia 11 de agosto,
sobre a palestra de
Pierre Lévy está sendo apresentada hoje.
O
virtual é um problema que demanda uma resposta. Para explicar isso,
Lévy recorre a uma metáfora simples: o virtual é a semente. O atual
é a árvore que dela brota: "Contrariamente ao possível, estático já
constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de
tendências ou de forcas que acompanha uma situação, um
acontecimento, um objeto ou novidade qualquer, e que chama um
processe de resolução: a atualização (...) A atualização aparece
então como a solução de um problema, uma solução que não estava
contida previamente no enunciado. A atualização é criação, invenção
de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de
finalidades (...) O real assemelha-se ao possível; em troca, o atual
em nada assemelha-se ao virtual: responde-lhe". Não há ilusão.
Somente criação. De algum modo, Pierre Lévy parece empregar todas
as suas forcas para advertir a todos de que algo muito mais
importante do que se diz está acontecendo. A Internet não é apenas
um bom instrumento para arranjar amigos ou parceiros sexuais, nem
somente um extraordinário banco de dados, mas principalmente uma
ferramenta cognitiva que altera a percepção, a memória e o sistema
de produção e gestão do saber.
Podemos, então,
entender o que está se passando: um mundo virtual está criando uma
nova realidade. Acho que quase todos nós já utilizamos a expressão:
"Vou ao banco paga esta conta" mas o que faz é acessar o seu
banco pela Internet. Ou
"Vou comprar uma entrada para o cinema", na Internet ou mesmo: "Vou
fazer compras no supermercado, na Internet. Nossa percepção de
realidade está modificada pela virtualidade.
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Qual o futuro:
imagino que depois do grande boom do SL - parece que
está diminuindo rapidamente - o que vai se passar é uma modificação da
interface de nossos computadores. Há alguns anos assisti uma
demonstração de um ambiente virtual para alunos do primeiro grau, no
Chile, onde havia uma praça de uma pequena cidade típica. O aluno
poderia entrar no correio e escrever uma carta, a carta era
transformada em uma mensagem de e-mail e transmitida para o
destinatário, na recepção a mensagem era transformada em um envelope
tradicional de carta que podia ser aberto e lido como uma carta
normal. Isto era realidade ou virtualidade? A mesma coisa acontece no
SL, vejam o exemplo a seguir (cedido pelo Prof. Marcelo Johann): uma
aula real da Universidade de Edimburgo apresentada no mundo virtual do
SL. Mas ainda podemos falar de virtual? Uma aula em EAD é
real ou virtual? E uma aula real transmitida por vídeo apresentada em
uma sala virtual do SL?
Chegamos ao
incrível Mundo Novo, espero que minha próxima versão de sistema
operacional não tenha mais pastas de arquivos mas prateleiras para
guardar os documentos e se eu colocar um destes documentos em uma
impressora - mas para que impressora? - na mesa de um colega o
documento lá apareça, se a mesa no virtual corresponder a uma mesa no
real o documento será materializado por meio de uma impressora
integrada na mesa. O mesmo com a TV em casa ou com o computador, a
mesma interface em que o virtual e o real se confundem. Mesmo que esta
experiência do SL não prospere, atualmente há um
forte indicativo de sua decadência em número de usuários, a metáfora
está criada e consolidada. Daqui para a frente não
existirá mais real nem virtual em computação, vamos viver com uma nova realidade expandida,
as possibilidades são imensas: óculos sobrepondo mapas às ruas pelas
quais caminhamos, pára-brisas de carros com informações sobre o
roteiro e avisos de chuva, computadores integrando grupos virtuais com
o espaço físico. Qualquer dia destes nos encontramos no
SL, ou quem sabe se em nossos computadores, para discutir estas crônicas, até lá...
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