| Passou o Carnaval,
está na hora de começar um novo ano escolar. Responda: Você é
competitivo? Se a resposta for positiva leia esta
crônica. Se você é um bom aluno de graduação ou se
já se formou e pretende continuar seus estudos para a
obtenção de um mestrado ou um doutorado continue a ler,
este assunto é muito importante. Na crônica "As Universidades
brasileiras são competitivas?" discuti os problemas que são criados por algumas instituições
pensarem
que um curso universitário deve ser competitivo com base
em seu preço (os marketeiros traduziram a
palavra preço por investimento) e não
pela sua qualidade. Agora, nesta crônica, vou discutir a competitividade
dos estudantes, será que os candidatos à pós-graduação são realmente competitivos ou estão
procurando o caminho de menor resistência? Eu
aposto na primeira opção, se alguém quer enfrentar uma
pós deve ser competitivo! É para vocês esta crônica.
Escolher um orientador não é uma decisão isolada, é
preciso escolher a Instituição, encontrar meios
financeiros para permanecer lá por dois anos para o
mestrado e quatro para o doutorado e, finalmente,
encontrar o orientador. Reparem que esta não é uma
decisão fácil pois existem diversos parâmetros em
jogo. Meu objetivo é auxiliar aos candidatos a uma
pós-graduação tomarem a melhor decisão, não a
perfeita mas a melhor possível dentro das limitações
normais de cada pessoa. Se alguém vai investir dois anos
de sua vida para fazer um mestrado ou quatro para obter
um doutorado é preciso trabalhar bem na preparação do
curso. Por analogia pergunto: quanto tempo se gasta para
planejar e aproveitar bem umas férias de uma semana ou
de quinze dias? Não seria adequado aplicar muito mais
esforço no planejamento de anos de nossas vidas? Quantos
fazem este planejamento? O planejamento para a escolha da
pós-graduação a seguir é essencial. Lembre-se, você
gasta horas e horas decidindo em que praia vai pegar as
melhores ondas, para decidir sobre anos de sua vida é
preciso muito mais planejamento. Seu futuro pode depender
de uma boa decisão. Vamos tratar desta questão
respondendo três perguntas: onde? como? com quem?
Para
avaliações fidedignas, em Administração, utiliza-se
uma técnica denominada de benchmark. Nesta
técnica são escolhidas organizações-padrão, de alto
reconhecimento no setor, e são obtidos indicadores chave
para avaliar sua qualidade e desempenho. Após, estes
mesmos dados são medidos nas organizações que queremos
avaliar e os resultados são comparados com as
organizações-padrão. Então é possível realizar
comparações justas e precisas. Estas medidas devem ser
estáveis e amplas. Pense nisto quando fizer
comparações! Vou tentar ajudar nesta tarefa com a
identificação das medidas necessárias para um bom benchmark
para a avaliação de Instituições e de orientadores de
pós-graduação. Estas medidas podem ser quantificadas por meio de perguntas. Mas não
se engane pela propaganda, há algumas semanas li um
anúncio de uma Universidade que se dizia a melhor em
tudo, mas quando se presta atenção nas letras pequenas (critérios para a
classificação) é possível notar que houve um cuidado
extremo em selecionar competidores, para dizer o mínimo,
muito particulares para a obtenção destes resultados.
Outra falácia é a propaganda de cursos ditos
"recomendados pela CAPES", ora esta
recomendação é para que o programa entre na fase de
avaliação, no ciclo de três anos.
Para
começar este planejamento a primeira pergunta a ser
respondida é onde? Onde fazer minha
pós-graduação? Se você é competitivo não se
contente com pouco, escolha o melhor programa e o melhor
orientador que puder. Seu futuro pode depender destas
decisões. Isto não quer dizer que se for impossível
entrar para um curso top seu futuro estará
comprometido, nada disto. Se, ao final, você não
conseguir entrar naquela Universidade top que
estava planejando é hora de fazer os planos para as
próximas etapas, mas isto será tratado em outra
crônica no futuro.
Há dois
níveis na pós-graduação estrito-senso: o mestrado e o doutorado. Se você é
candidato a um mestrado não há nenhuma razão essencial
para ir para o exterior. A maioria dos mestrados no
Brasil bem avaliados pela CAPES são melhores do que os
cursos ditos "mestrado" no exterior. Com a
reformulação européia decorrente da Declaração de
Bolonha há uma série de cursos rápidos (de um
ano) na faixa do mestrado. Isto ocorria com os DEA na
França, há uma séria dificuldade em revalidar estes
diplomas no Brasil pois, em geral, eles não têm o mesmo nível de
exigência de nossos mestrados. A única condição real
para justificar um mestrado no exterior é o fato de não existir
algo na sua área específica por aqui, mas isto é,
atualmente, muito difícil de acontecer. Outra justificativa é a
experiência d intercâmbio, mas para isto você deverá encontrar
fontes de financiamento alternativas, as agências
brasileiras somente financiam mestrados no exterior em casos de
absoluta inexistência de formação no tema aqui no país.
Para o
doutorado você deve analisar bem suas opções, um bom
doutorado no Brasil - com a previsão de um estágio no
exterior (doutorado sanduíche)
- pode ser uma
ótima opção, melhor até do que um doutorado completo
no exterior pois mantém o contato com a sociedade local
e mantém ativos os contatos para um futuro trabalho.
Quando vale a pena fazer um doutorado no
exterior? Quando
você consegue ser aceito em um centro de excelência
exatamente na área de pesquisa desejada ou quando o
assunto de sua escolha não está disponível no Brasil.
Em áreas com tradição de pesquisa mais consolidada,
como a Física, os alunos terminam o doutorado no Brasil
e, só depois, são considerados preparados para um
pós-doutorado em um centro de pesquisa estrangeiro.
Neste caso o objetivo é a experiência em outros
ambientes e o estabelecimento ou manutenção de projetos
conjuntos de pesquisa.
Tomada a
decisão sobre a região geográfica da pós-graduação
vamos passar para a seleção da Instituição de
destino. A seguir apresento um pequeno roteiro para
avaliar um programa de pós-graduação (aqui a versão
completa) para facilitar a resposta a esta pergunta:
- Qualificação
do corpo docente
- procure os CV Lattes dos orientadores que
trabalham na sua área de interesse, veja se eles
têm produzido regularmente, se suas
publicações são em bons veículos de
divulgação, para isto existe o sistema de
classificação QUALIS da CAPES.
Para a área de computação há um site específico na
UNICAMP.
- Dedicação
do corpo docente às atividades de ensino,
pesquisa e orientação.
- os professores trabalham em tempo integral no
ensino/pesquisa? verifique se o número de
orientandos é compatível com o tempo de
doutoramento do orientador, não se esqueça que
pequenos grupos de pesquisa costumam ter menos
alunos por orientador, mas isto não é uma regra
geral. Observe, também, que há ótimos orientadores
trabalhando em tempo parcial na Universidade, mas para a
avaliação de um Grupo de Pesquisa é essencial que a grande
maioria dos orientadores o seja em tempo integral.
- Os
temas de tese e projetos de pesquisa são atuais
e relevantes na área específica?
- este quesito é mais difícil de avaliar, se
não conseguir respondê-lo peça ajuda para seus
melhores professores na graduação.
- No
caso de temas locais, estes são abordados ou
desenvolvidos com a necessária qualidade
científica?
- muitos programas tratam de temas de interesse
local ou regional, mesmo neste caso se a pesquisa
for de qualidade deve ter sido publicada em bons
veículos de divulgação, nacionais e
internacionais.
- A
infra-estrutura do programa (laboratórios,
biblioteca recursos de informática, etc.) é
adequada?
- algumas vezes as páginas dos programas
permitem uma avaliação, se isto não for
possível ou para complementar, sugiro a leitura
de material como o Guia do Estudante da Abril
ou a análise da Info Exame para a
área de Computação. Use o e-mail ou fale com
seus colegas ou conhecidos que estão estudando
nos programas candidatos para obter informações
complementares.
A primeira
coisa a fazer é procurar responder estes itens e
registrar os dados obtidos, você deve fazer uma planilha
com os nomes dos programas pretendidos e dar uma nota
para cada um dos itens. Os dados podem ser obtidos nas
páginas Web de cada programa, do site da
CAPES onde há uma seção denominada AVALIAÇÃO, de informações obtidas de seus
professores, de opiniões de egressos destes cursos etc.
No site da CAPES se encontram os critérios de
avaliação e as fichas de avaliação de cada programa.
Procure conhecer os cursos oferecidos, seus pontos fortes
e fracos, suas áreas de atuação. Uma vez
conhecidos os programas selecione aqueles que oferecem
pesquisa em sua área de interesse, não adianta ir para
um programa de boa qualidade mas que não tem
pesquisadores trabalhando no seu assunto preferido.
Concluída esta fase selecione os programas candidatos.
Se a sua decisão tiver sido por um curso no exterior,
muito cuidado. Só escolha cursos com alto renome, sair
para um curso "meia-boca" não vale a pena de
forma alguma, é melhor fazer um curso no Brasil onde há uma
verificação séria da qualidade dos programas.
A segunda
questão a ser respondida é como? Como você vai seguir o curso? Este
critério deve ser avaliado em função de suas
possibilidades econômicas, além disto, verifique as
possibilidades de bolsas em cada um dos programas. Talvez
seja interessante ficar trabalhando algum tempo para
acumular uma reserva de dinheiro adequada para poder
fazer um curso com mais dedicação. Muitas vezes há uma
entrevista para a seleção dos candidatos a bolsas, leia
esta lista de sugestões de comportamento para se preparar.
- Bolsas
disponíveis
- normalmente as bolsas do CNPq e de
outras agências como a CAPES são
alocadas aos alunos com melhor desempenho
acadêmico. Pode ser que existam projetos de
pesquisa com bolsas DTI, estas são
interessantes. Em algumas instituições existem
bolsas de Indústrias, neste caso verifique
quanto de seu tempo poderá ser dedicado á
pesquisa e se o compromisso assumido com o
patrocinador é compatível com suas
expectativas.
- Instituições
que oferecem bolsas
- tenho uma lista
destas Instituições, esta
lista é apenas ilustrativa e não assumo
responsabilidade sobre a qualidade dos serviços
oferecidos.
Em muitos
locais há listas de discussão de alunos para a troca de
experiências sobre a vida naquela cidade. procure estes
recursos, experimente o Orkut, mas sempre tenha cuidado
com a sua segurança. Obtenha informação de pessoas conhecidas, verifique se estas pessoas têm CV
Lattes e que outras informações existem na Web.
Finalmente
a terceira questão, que é o título desta crônica, é com quem? Quem será o seu
orientador? Um orientador é peça essencial para uma boa
pós. Não espere encontrar um orientador paizinho,
este não é o papel do orientador. Um orientador deve
ter boa produção na área em que você está
interessado e deve ser capaz de orientar os
alunos. A palavra orientar diz tudo: dar a
orientação, a direção. Para isto experiência de
pesquisa é importante. Você é que vai fazer o
trabalho, acho que todos conhecem a expressão: "A
criatividade é feita de 10% de inspiração e de 90% de
transpiração", o orientador será de uma ajuda
fenomenal nos 10%, a transpiração é por conta de
vocês. Entretanto deve ser analisada a proposta de pesquisa do grupo em
que você está interessado, além disto é importante que você
consiga estabelecer um bom relacionamento pessoal com seu orientador.
Este fator é bastante difícil de avaliar antes de conhecer bem o
grupo de pesquisa e seu estilo de trabalho. Uma forma de tentar ter
esta visão é contatar ex-alunos e conhecidos no grupo.
A seguir, para avaliar os
orientadores do ponto de vista acadêmico, a próxima atividade é buscar o CV Lattes dos prováveis
orientadores e analisá-los. Abaixo a tradicional lista
de itens a serem considerados:
- Dedicação
do orientador às atividades de ensino, pesquisa
e orientação.
- o professor trabalha em tempo integral no
ensino/pesquisa?
- Verifique
se o número de orientandos é compatível com o
tempo de doutoramento do orientador
- não se esqueça que pequenos grupos de
pesquisa costumam ter menos alunos por
orientador.
- Verifique
no Scholar Google as
publicações dos prováveis orientadores
- compare com o CV Lattes, a vantagem do Scholar
Google é que na listagem aparecem as citações
às publicações o que é um fator importante
para a avaliação da qualidade dos trabalhos.
- Procure
por uma homepage do orientador e do
grupo de pesquisa
- uma boa página deve apresentar, no mínimo, as
publicações mais recentes ou mais importantes,
os projetos de pesquisa do orientado ou do grupo
e uma lista de alunos orientados.
- Mande
um mail para os orientadores em perspectiva
Mande uma mensagem curta, objetiva
explicando porque você é importante para os
projetos daquele pesquisador em particular. Mesmo
os mais ocupados responderão se sentirem
responsabilidade e a oportunidade de ter um bom
aluno.
Agora
você tem todas as informações necessárias para uma
decisão séria. Pese cada um dos fatores envolvidos e
tente ser aceito na melhor Instituição e com melhor
orientador possível. Comece o processo de escolha e de
troca de mensagens com meses de antecedência, os bons
orientadores normalmente são pessoas ocupadas que
dificilmente estarão dispostas a gastar um tempo
precioso na véspera das submissões de candidaturas.
Não mande "cartas
circulares" iguais para inúmeros orientadores, quando recebo
este tipo de mensagem as considero spam... Apesar de nosso
grupo de pesquisa ter um bom site
com a lista de nossos projetos e com um resumo das publicações
mais recentes é comum receber mensagens do tipo: "o Sr. têm
alguma idéia para meu mestrado?" ou mesmo para trabalhos de
diplomação. O que vocês imaginam que um professor pensa de um
candidato que não se deu nem ao trabalho de procurar um tema que
poderia ser de interesse do orientador?
Você tem que "se vender" mostrando
suas qualidades, deve mostrar competência e seriedade. Se for
possível, monte uma homepage séria, isto é o equivalente aos books
das modelos, com sua
produção, trabalhos etc. Cuidado com o seu perfil do Orkut, ele
mostra a sua personalidade! Não se esqueça que o CV
Lattes deve estar absolutamente atualizado, esta será a
primeira verificação que o orientador fará, um candidato a mestrado
e, pior, a doutorado sem um Lattes começa em desvantagem. Cuide da qualidade dos textos
enviados ao futuro orientador, estes são seu cartão
de apresentação, um texto com português horrível lhe
garantirá a exclusão do processo. Lembre-se tudo o que você fez na
sua vida acadêmica deve ter valor para o processo de seleção, procure
demonstrar isto.
Finalmente se durante a
graduação você não acumulou pontos para garantir o seu ingresso na
pós, está na hora de começar, procure um curso de especialização
na sua área (em uma instituição que tenha bons grupos de pesquisa)
e oriente seu estudo para a área desejada. Faça um trabalho de
conclusão acadêmico e tente publicar. Se você tem ampla
experiência profissional então deve transformar esta experiência em
resultados acadêmicos, projetos conjuntos com grupos de pesquisa são
outra boa alternativa. A pesquisa, como os esportes
de competição, é muito desafiadora e necessita de uma boa
preparação.
Boa sorte!
Cuidados a
serem tomados:
- Se
algum orientador aceitar um aluno só pelo
interesse do aluno e não com base em suas
pesquisas e projetos atuais ou este orientador é
"uma mãe brasileira" que não
sabe dizer não ou está com falta de candidatos.
- Se
uma Universidade o aceitar somente por um e-mail
dizendo que a real seleção é realizada durante
o cursos há um forte risco de você entrar em
uma fria, um programa de qualidade se
preocupa muito com os ingressantes.
- Os
cursos denominados MBA - Master of Business Administration, apesar do nome são cursos de
especialização em Administração.
- Não
confie em ninguém ou instituição em outra
cidade sem uma verificação cuidadosa de sua
idoneidade.
- Garanta
a cobertura por um plano de saúde, pequenos ou
grandes problemas podem surgir se você não
tiver cobertura.
- Seja
honesto (fair) com os orientadores, se
mudar de decisão avise com a maior antecedência
possível, não tente enganar o programa e o
orientador com promessa de matrícula para
garantir eventual situação, seja franco. Caso
contrário estará prejudicando outros candidatos
que podem perder a oportunidade.
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