Para que Diploma?
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Esta crônica surgiu como reação a
um artigo publicado no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, do dia 22 de
Outubro, p. 20, com o título: Diploma só de
parede. As
cores do título foram estas mesmas! Outro fato
motivador foi uma discussão em uma lista do
Google sobre EAD onde me pareceu que estava sendo
dado valor demasiado a diplomas de
pós-graduação a distância quando penso que o
centro da discussão deva ser a qualidade e o
objetivo do curso e não a revalidação do
diploma. Com o artigo da Zero Hora fiquei
preocupado pensando que era mais um tipo de
fraude, agora de compra de diplomas. Nada disso,
o problema são as pessoas que, concluindo uma
Universidade, não exercem a profissão. A tabela
ao lado, incluída no artigo, mostra a
percentagem de pessoas que continuam trabalhando
na sua área de formação universitária. Estes
dados foram originados no artigo Correspondência
entre Formação e Profissão, Documento de Trabalho
nº. 50, por Edson Nunes, Enrico Martignoni,
Leandro Molhano, Márcia Carvalho do Observatório
Universitário.
Para que deseja estudar em profundidade os dados,
inclusive com análise de remuneração,
aconselho a leitura, é volumoso!
Considerando
este afastamento das atividades profissionais em
relação aos títulos universitários recebidos
verifica-se que algo está errado, muito errado.
Quem vai passar quatro anos ou mais em uma
Universidade e depois desistir da sua profissão?
Uma forma de interpretar este fato é
classificá-lo de desemprego ou subemprego
intelectual. Neste caso o diploma serve, na
melhor das hipóteses, como realização pessoal,
é realmente um diploma de parede. A pessoa sente-se melhor ao ter um
título de "doutor" belamente
emoldurado na parede de sua casa. Lembro-me,
ainda, de alguns escritórios de advocacia com
belos diplomas em pergaminho, redigidos
manualmente com tinta Nanquin, e com um selo da
Universidade aplicado em lacre, expostos para os
clientes. Na época esta apresentação era
importante, uma forma de segurança para os
clientes, a OAB ainda não tinha um site
Web onde é possível conferir se a pessoa era
realmente um advogado registrado. Aliás, hoje o
diploma só asseguraria que o portador é um
bacharel em Direito, precisaríamos ter, ainda, o
registro da Ordem ao lado. Esta visão é
realmente ultrapassada de diploma na parede,
ainda é um resquício da época em que havia uma
enorme estratificação social e apenas os
"ricos" podiam ir para a Universidade.
Criou-se, então, a imagem de que o diploma era
sinônimo de posição social e de uma certa
segurança econômica. Era exatamente o
contrário, só que tinha estas pré-condiçoes
conseguia um diploma universitário. Claro que
sempre existiram belas e honrosas exceções.
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O tempo passou e
como Chico Buarque cantou: "Eu bem que avisei a
ela, o tempo passou na janela só Carolina não viu".
Parece que não foi só a Carolina que não viu, uma
grande parte da população brasileira também não viu.
Antes de entrar na análise mais detalhada do problema
dea estrutura educacional brasileira vamos procurar fazer
uma breve análise da tabela acima. Minha impressão é
que naqueles cursos em que a formação é mais ligada a
uma aquisição de competências práticas, isto não
quer dizer que tenham menos base conceitual mas sim que
além desta formação necessitam de prática e de
aquisição habilidades, há uma maior permanência na
atividade. Nos cursos mais conceituais há uma grande
fuga. O extranho é o caso da Engenharia, mas acredito
que este caso seja mais ligado ao problema que tratei na
crônica A pós-graduação em computação e a
indústria, mas agora no
nível de graduação. Talvez não tenhamos uma
indústria que os absorva. Quem sabe se o nosso
crescimento fosse maior do que 3,8% ao ano tivéssemos
mais engenheiros na produção.
Vamos tentar enfrentar
o problema central, o que mudou com o tempo? Acho que a
idéia de Universidade Humboldtiana, isto é aquela
Universidade onde o objetivo da formação é o
conhecimento e que associa, necessariamente, a pesquisa
ao ensino foi, por um lado, mal aplicada e por outro não
é necessária para a grande massa de profissionais. Se,
para tornar o Brasil um país realmente competitivo,
precisamos de Universidades deste tipo, por outro lado
precisamos de formação vocacional. Consideremos
primeiro a Universidade Humboldtiana, sem uma ação
poderosa e de longa duração não formaremos mais
competências internacionais. A pergunta para demonstrar
isto é: "Quantos prêmios Nobel tem o
Brasil?", acho que não preciso responder. Por outro
lado, quando a Alemanha adotou nos 18`s este modelo de
Universidade obteve logo após no início do século XX,
uma das maiores concentrações de Prêmios Nobel.
Precisamos de centros de excelência dentro deste modelo
para suportar um desenvolvimento e uma criação de
tecnologias mundialmente competitivas. Não faz sentido
massificar estes centros para dar diplomas de parede.
No outro lado, na
formação vocacional, para as pessoas interessadas em um
ingresso rápido no mercado de trabalho existem
múltiplos níveis de estudo. Desde 1970 estes níveis
são definidos pela UNESCO e a classificaçlão foi
revisada em 1997 em International Standard Classification of
EducationI S C E D 1997.
Para nós o nível que interessa é o relacionado com a Educação
Superior (Educação terciária, ISCED 5-6)
Programas Educacionais em
Nível Universitário (Terciário tipo A, ISCED
5A) são fortemente baseados em teoria e planejados para
oferecer qualificação suficiente para a entrada em
programas avançados de pesquisa e em profissões com
altos requisitos de competências como medicina,
odontologia ou arquitetura. Programas terciários do tipo
A têm uma duração mínima de três anos em tempo
integral apesar de durarem, tipicamente, quatro ou mais
anos. Estes programas não são oferecidos exclusivamente
por universidades. Inversamente nem todos os programas
reconhecidos nacionalmente como programas universitários
preenchem os critérios para serem classificados como
terciários do tipo A.
Programas Educacionais
Vocacionais Avançados (Terciários tipo B,
ISCDE 5B) Estes programas são tipicamente mais curtos
que os terciários do tipo AQ e focados em competências
práticas, técnicas ou ocupacionais para a entrada
direta no mercado de trabalho apesar de que algumas
fundamentações teóricas possam ser cobertas pelos
respectivos programas. Estes programas têm uma duração
mínima de dois anos com dedicação exclusiva.
Qualificação Avançada de
Pesquisa (ISCDE 6) Este nível corresponde aos
programas que levam diretamente para um título de
qualificação em pesquisa avançada como Ph.D. A
duração destes cursos é de três anos em dedicação
exclusiva na maioria dos países atingindo um total de
sete anos de dedicação exclusiva no nível terciário
apesar de o tempo de matrícula ser tipicamente mais
longo. Estes programas são dedicados para estudo
avançado e pesquisa original..
Programas Educacionais
Pós-secundários não Terciários (ISCDE 4)
Estes programas se sobrepõem à fronteira entre o
secundário superior e a educação pós-secundária na
definição internacional. Os mesmos podem ser
classificados como secundário superior ou
pós-secundário em diferentes países. Apesar do seu
conteúdo não ser significativamente mais avançado do
que os programas secundários superiores eles servem para
ampliar o conhecimento adquirido pelos participantes no
secundário superior. Os estudantes matriculados tendem a
ser mais velhos do que os matriculados no nível
secundário superior.
Olhando este quadro dá para
perceber que estamos muito a descoberto na área Vocacional.
Aqui encontro a resposta para a pergunta: "O que
mudou com o tempo?". O que mudou foi uma enorme
modificação da estrutura social e da economia. Agora
são necessários profissionais de todos os níveis, e o
melhor: a boa remuneração não é mais reservada para
aqueles diplomas tradicionais, mas, muitas vezes, é
maior no caso de profissionais técnicos muito bem
qualificados. Ai se encontra a origem da proliferação
de "engenheiros certificados no produto xxx",
notem que esta é uma tradução errada do inglês
"certified engineer", tomemos o WordNet:
WordNet (r) 1.7
engineer
n 1: a person who uses scientific knowledge to solve practical
problems [syn: applied scientist, technologist]
2: the operator of a railway locomotive [syn: locomotive
engineer, railroad engineer, engine driver]
v 1: design as an engineer; "He engineered the water supply
project"
2: plan and direct (a complex undertaking); "he masterminded
the robbery" [syn: mastermind, direct, organize, organise,
orchestrate]
Neste caso particular
a interpretação certa seria a 2: o operador do produto
xxx. Nossa cultura de bacharéis nos impede de aceitar
esta definição e adotamos a de número 1. Quem já viu
o conteúdo de um destes cursos entende claramente que o
conceito 2 é o mais adequado. Eu tentei seguir um destes
cursos, há anos, e logo desisti pois tudo o que eu
queria saber o instrutor não sabia responder e tudo o
que ele ensinava era a operação do produto. É claro,
eu queria uma formação do tipo 1: para saber como o
Sistema Operacional funcionava, que tipos de
interrupção, o problema da peempção etc. e o
Instrutor queria dar uma formação do tipo 2: que
comando usar para fazer algo. Antes que me atirassem fora
da sala pela janela desisti...
Aqui está a resposta,
não vamos procurar um Diploma do tipo SCED 5A ou ISCDE 6
orientados para a pesquisa e para o desenvolvimento
tecnológico avançado se o que desejamos são cursos
vocacionais do tipo Terciários tipo B, ISCDE 5B ou mesmo
mais avançados como ISCDE 4. Está na hora de rever seus
conceitos, como naquela propaganda da TV, ainda mais se o
pagamento pode ser muito melhor para os egressos de
cursos vocacionais. É melhor um diploma na parede ou um
bom e bem remunerado trabalho?
Segundo dados da Agência Brasil com base
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (Inep/MEC), o número de matrículas no
ensino técnico representa 8% do total de estudantes
matriculados no ensino médio. Isto precisa ser mudado, e
logo.
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