| Meu mundo
caiu! Será que a visão que eu tinha da nossa
inserção no mundo estava errada? O artigo da
Veja trata do número de brasileiros seguindo
cursos de pós-graduação no exterior. A tabela
do lado esquerdo foi retirada deste artigo (dados
da OCDE). O quadro é assustador, será que
estamos tão mal assim? Após o choque inicial me
lembrei do ditado que diz: "a estatística
é a forma de torturar os números até que eles
confessem o que queremos". Estariam aqueles
números absolutos distorcendo a enorme
diferença entre as populações dos países
citados? Para verificar o significado real destes
números resolvi calcular qual é a parcela
destes pós-graduandos em relação à
população de seus países. Na tabela acima à
direita encontramos o resultado deste cálculo: a
porcentagem dos alunos no exterior em relação
à população
total de cada um
dos países citados. A situação continua
crítica, é até pior do que aquela percebida
pela simples visão dos dados brutos. Mas é importante termos um grande
número de estudantes em formação no exterior?
A formação oferecida aqui no Brasil não é
suficiente? Como comentei na crônica
anterior, nossos
cursos de pós-graduação estão recebendo menos
alunos do que poderiam formar. Então porque
mandar pessoas para o exterior? Pensando melhor
sobre a estrutura educacional brasileira fui
procurar dados e normas internacionais. Existe
uma padronização da denominação de cursos a Norma
Internacional para a Classificação de
Educação
- ISCED - criada pela UNESCO. O
objetivo desta norma foi criar um
referencial para permitir a obtenção de dados
estatísticos e fazer o acompanhamento da
educação em diferentes países. Ai comecei a
entender melhor a visão da comunidade acadêmica
brasileira sobre a inserção mundial. Por
exemplo, os físicos, de forma geral, consideram
que o doutorado pode ser feito muito bem aqui no
Brasil e, só então, o físico estará pronto
para um período de pós-doutorado no exterior.
Isto é muito justificável, pois a bagagem
conceitual e teórica para a pesquisa avançada
em física é enorme. Nós estamos pensando de
forma semelhante na computação enquanto
ciência. Mas ao procurar mapear a educação
em diversos países
para a ISCED percebí que a minha visão, e de
grande parte dos acadêmicos brasileiros,
referia-se somente ao nível "Level 6 - Second stage of
tertiary education" ou seja a Qualificação Avançada
em Pesquisa. E os demais níveis? Como deve ser
encarada a computação como habilidade
profissional?
Fica a aparente qual nossa
estrutura educacional: temos vocação para um
único nível: aquele relativo a "Programas
Educacionais em Nível Universitário" que
são fortemente baseados em teoria e planejados
para oferecer qualificação suficiente para a
entrada em programas avançados de pesquisa.
Nesta área creio que estamos bastante bem para
um país no nível de desenvolvimento do Brasil.
Esta era a minha percepção até agora. Mas a crise do ensino
superior está
mostrando que precisamos desenvolver as outras
formas de ensino: os pós-secundários, os
vocacionais e os vocacionais avançados. Uma
tímida ação consiste nos cursos
universitários seqüênciais, mas este cursos
misturam alunos com perfil Universitário com
alunos com perfil Vocacional, será que vai dar
certo? Fica, então aparente a necessidade de
criarmos cursos superiores, pós-secundários e
secundários nitidamente vocacionais. Está na
hora de aceitarmos que nem todas as universidades
e centros universitários devem seguir o modelo
humboldtiano de Universidade, muitas devem se
converter para o modelo vocacional.
E o que isto tudo tem a ver
com com a internacionalização? Tem tudo, o
modelo que montamos é orientado para a
"Qualificação Avançada em Pesquisa".
Neste formato atingimos uma boa competência e
qualidade, mas o que se passa nos vocacionais?
Mesmo no mestrado, considerado para muitos como
preparação para a inserção no mercado
empresarial ou industrial, a experiência
internacional é fundamental. E na formação
vocacional? Ao serem criados novos cursos é
preciso que sejam estabelecidos vínculos com
instituições co-irmãs no exterior para
facilitar o intercâmbio. Se lermos a A Declaração
de Bolonha, de 19
de Junho de 1999 encontramos estas passagens:
"Criação de um sistema de
créditos - tal como no sistema ECTS - como
uma forma adequada de incentivar a mobilidade
de estudantes da forma mais livre possível.
Os créditos poderão também ser obtidos em
contextos de ensino não-superior, incluindo
aprendizagem feita ao longo da vida, contando
que sejam reconhecidos pelas Universidades
participantes."
"Promoção
das necessárias dimensões a nível Europeu
no campo do ensino superior, nomeadamente no
que diz respeito ao desenvolvimento
curricular; cooperação inter-institucional,
projetos de circulação de pessoas e
programas integrados de estudo, de estágio e
de investigação."
Este é o ponto central,
estamos conseguindo abrir a economia para o
mercado internacional, agora precisamos abrir
amplamente a possibilidade de formação de
nossos alunos em múltiplos países e com
diferentes formas de aprendizagem. Isto não pode
ser feito simplisticamente, é preciso discutir e
definir uma regulamentação e uma legislação
que permita o intercâmbio com qualidade
assegurada. Alguns exemplos são os acordos de
bi-diplomação em que um aluno, cumprindo regras
bem claras de permanência e aprovação, recebe
um diploma pela Universidade brasileira e
estrangeira. E os estágios profissionais? Como
podem ser considerados na aquisição de
créditos? Há previsão de estágio curricular
com contagem de créditos nos nossos cursos? Ou
isto só deve ser feito nos cursos vocacionais?
Há inúmeras perguntas que devem ser respondidas
antes que tenhamos um sistema plenamente
operacional. A legislação e as regras
operacionais da Universidades devem cobrir este
novo mundo de alternativas. Há um grande risco
de perda de qualidade pela aceitação de
qualquer atividade profissional como crédito
acadêmico. Há exemplos deploráveis disto nos
chamados "estágios curriculares" que
muitas vezes nada mais são do que contratação
de mão de obra barata.
Como discuti
anteriormente
estamos com um sério problema de inserção dos
doutores nas indústrias. A resposta à fraca
inclusão dos nossos pós-graduados nas
indústrias está no desenvolvimento industrial.
Para que as indústrias possam se atualizar e
criar tecnologia competitiva é necessário
absorver esta experiência e vivência
internacional. A solução deste problema deve
passar pela mudança da cultura empresarial e
acadêmica, com a valorização dos estágios
profissionais, das especializações e dos
mestrados no exterior. Isto tudo desenvolvido em
ampla integração com os objetivos e grupos de
P&D das empresas. Uma vez retornados, estes
profissionais estimularão a inserção
internacional o que levará, a mais longo prazo,
a mudança de cultura empresarial a absorção
dos doutores. esta mudança é essencial à
competição internacional, sem isto resta a
falência em um mercado muito competitivo.
Além de mudar a cultura,
ou mesmo para conseguir esta mudança, é preciso
encontrar os fundos necessários ao financiamento
do intercâmbio, o sistema CAPES/CNPq e FAPs
está orientado para a formação de pesquisa
avançada, e é essencial manter este foco para
que continuemos com uma pós-graduação
competitiva internacionalmente. Os recursos
governamentais são limitados e devem ser
orientados para a sociedade em geral, neste caso
para a formação de recursos humanos de alto
nível. Mas as empresas, as grandes beneficiadas
do processo de formação, onde entram? Elas
serão as maiores usuárias desta formação
vocacional internacional. É preciso um sistema tri-partite
de financiamento com a aprticipação do governo,
das empresas e das Universidades. A cobertura de
custos - mesmo que parcial - pelas empresas, o
apoio das Universidades na alocação de recursos
e algum tipo de renúncia fiscal associada aos
valores aplicados na formação dos recursos
humanos. Os cursos de especialização
brasileiros podem ter um módulo de experiência
internacional, conheço dois casos aqui no RS,
mas - novamente - encontramos o problema dos
custos. Qual a participação das empresas na
formação de seus funcionários? Elas cobrem,
mesmo que parcialmente, estas despesas? Para a
maior parte dos brasileiros financiar do próprio
bolso estes estágios é quase impossível.
Para você que é aluno, de
qualquer nível, imagino que agora deve estar
motivado para se aperfeiçoar no exterior. Se for
professor penso que seria interessante discutir o
assunto com seus alunos. Então entre na seção
Ensino
no Mundo e descubra
as possibilidades e dicas para abrir os
horizontes e aumentar a competitividade. Há
muitas possibilidades de bolsas e de apoio a
estas atividades. A competição é alta, é
preciso se esforçar.
|