Dr. José Palazzo Moreira de Oliveira
Professor Titular do Instituto de Informática da UFRGS

Home ] Acima ] Crônicas 1-10 ] Publicações livres ] Segredo na pesquisa ] Rewarding ] Preservação digital ] Plágio eletrônico e ética ] Propriedade intelectual ] CC e Humanidades ] [ Receba pelo seu conhecimento ] A crise no ensino de computação ] A pós-graduação em computação e a indústria ] 

Share on Facebook Compartilhe no Facebook
Crônicas > 008

Receba pelo seu conhecimento

<índice

José Palazzo Moreira de Oliveira
http://palazzo.pro.br
1 de Junho de 2006

O trabalho humano pode ser classificado em três etapas: a pré-industrial, a industrial e a pós-industrial. As etapas do trabalho são definidas, não somente pela tecnologia utilizada, mas principalmente pelos métodos de trabalho decorrentes do emprego desta tecnologia. O desenvolvimento do ambiente de trabalho, incorporando as novas tecnologias aos hábitos de produção, é um processo demorado que requer amadurecimento. A etapa pré-industrial é originaria da metade do século XIX, sendo caracterizada pelo trabalho nos moldes anteriores à difusão do processamento da informação. Cada individuo executa as atividades que lhe são solicitadas, encaminha outras atividades conforme seus conhecimentos, participando de um ambiente informal de trabalho. À medida que as idéias de otimização e de produtividade foram tornando-se mais difundidas iniciou-se uma nova etapa, a chamada etapa industrial. Os líderes destas idéias foram Taylor e Ford no meio industrial. Cada indivíduo passa a ser encarregado de uma atividade elementar e são criados planos de carreira, trabalho padronizado e folhas de pagamento padrão. Esta atividade é executada inúmeras vezes sobre diferentes processos, documentos ou formulários (ver o filme Tempos Modernos de Charles Chaplin). Nesta fase estão as atuais formas de publicação, anais de conferências, diversos tipos de publicações onde os maiores lucros são das empresas editoriais e não dos pequenos autores. Os grandes autores realmente ganham adequadamente mas os pesquisadores têm seus trabalhos publicados sem auferirem nenhuma retribuição finaceira, ver a crônica "Propriedade Intelectual: controle e liberdade". Os pequenos autores ou as pessoas que detem um conhecimento interessante precisam encontrar uma forma de distribuir e receber por este conhecimento.

O desenvolvimento da Web permitiu uma nova abordagem ao trabalho intelectual. O emprego desta tecnologia deu origem a uma nova etapa tornando possível, novamente, o trabalho individualizado. Esta etapa denomina-se pós-industrial. A mesma é caracterizada pela flexibilidade. Os dados são mantidos em bancos de dados e o acesso aos mesmos é realizado através de estações de trabalho interligadas em rede. Nesta estrutura uma pessoa trabalha no local que lhe é mais adequado. Surge, então, o desafio de quantificar o trabalho e como é realizar o pagamento individualmente. Em uma Sociedade da Informação o que deve ter mais valor é o Conhecimento. Neste caso cada pessoa deve ganhar proporcionalmente a quantidade e a qualidade do conhecimento que pode oferecer bem como em função da utilidade deste conhecimento possa ter para os usuários. A pessoa passa a receber de acordo com seu nível de conhecimento e de acordo com a sua capacidade de oferecer conhecimento útil. Este é O novo paradigma de pagamento pelo trabalho intelectual. Mas resta o problema de consolidar esta nova forma de reconhecimento do valor da contribuição intelectual e de implantar formas viáveis de pagamento. Vejamos alguns exemplos práticos.

Em uma notícia recente no Blog me referi a uma proposta interessante, não sei se funciona nem estou fazendo propaganda comercial do serviço, o que me interessa é a proposta: um pagamento pequeno, mas multiplicado por um número potencialmente muito grande de acessos. Aquele site está propondo o pagamento pela redação de resumos. Há mais tempo havia me referido a um site da Experts Exchange que oferece uma ótima oportunidade de encontrar a solução para problemas de instalação, programação ou debugging de sistemas. Este é um site que permite a discussão de assunto e a apresentação de soluções técnicas. Na época eles tinham 1.248.209 respostas catalogadas atualmente são 1.595.756. Qual o modelo usado para conseguir estes números? O site oferece boas respostas e quando um especialista (isto é: você) atinge cerca de 12 respostas, aceitas pelos consultantes, passa a receber a qualificação de especialista: Certified Expert. Alguns dos níveis são: {Master Level, Guru Level, Sage Level, Genius Level}. Esta certificação, em uma das áreas de competência, obtida de forma pública e independente de fabricantes, é um fator muito bom para a empregabilidade (ponha no currículo!) e serve como porta de entrada (apontadores) para o acesso ao seu site, aquele site onde você oferece os serviços pagos. Por outro lado a empresa Expert Exchanges tem lucro com a venda de serviços Premium para pessoas ou organizações que necessitam de respostas rápidas e também com a propaganda.

Poderíamos agrupar estes serviços em dois grandes grupos: (a) aqueles que pagam por acessos a fornecedores (propaganda) e (b) os que pagam por serviços de conhecimento.

O primeiro grupo é o mais difundido, por exemplo este site é suportado (otimisticamente espero que isto ocorra em algum momento) pelos acessos às ferramentas de busca e aos anúncios do Adsense. Quanto mais atraente, atual, interessante e útil for o conteúdo de umsite mais leitores e mais receita será gerada. Imagino que a pré-seleção de consultas relevantes ao assunto da crônica seja útil para o leitor. É claro que um ambiente deste tipo deve oferecer vantagens para todos os participantes. O sistema de oferta de anúncios procura inferir quais são os anúncios mais adequados para um dado conteúdo de site; os anunciantes passam a ter acessos de pessoas mais interessadas no assunto; e, finalmente, os leitores do site recebem mais informações atualizadas sobre serviços ou produtos de seu interesse sem serem sobrecarregados com material desinteressante. Recentemente rolou uma discussão no PodCast sobre o assunto de pagamento por anúncios,

O segundo grupo de serviços ainda está menos desenvolvido mas é o mais estimulante. Acredito que, no futuro, uma grande parte da remuneração dos profissionais liberais será gerada pela venda de conhecimento em pequenas quantidades para um grande número de usuários. A idéia central é pagar pequenos valores por pequenas quantidade de informação (em alguns casos podem ser grandes se o valor da informação for muito alto). Imaginem uma enciclopédia, você teria que pagar centenas ou milhares de reais por toda a enciclopédia mas se for possível comprar só um verbete por alguns centavos ou reais o valor total das vendas será, monetariamente, muito maior. O volume da receita se dá pelo grande número de acesso (vendas) e não por um pequeno número de vendas a um alto preço. Isto pode ser obtido pelo acesso a um grande conteúdo de informações adequadamente classificadas de forma a tornar facíl o a busca da informação desejada ou por sistemas de inteligência artificial que indicam ao usuário a informação mais adaptada ao seu interesse, estes são os sistemas de recomendação.

Ainda existem problemas tecnológicos envolvidos neste segundo caso. No primeiro grupo de serviços, acesso a patrocinadores, os valores de centavos são agregados até formarem um total que seja comaptível com os mecanismos atuais de transferência de fundos. No caso do pagamento a pequenas porções de conhecimento intelectual surge o problema da pulverização de fornecedores e de custo em sistemas de transferência eletrônica de fundos como o PayPal. Aqui você pode ver uma entrevista com Max Levchin Co-fundador da PayPal. É necessária a capacidade de trabalhar com quantias muito pequenas. Talvez isto possa fer feito por pré-pagamento, como nos celulares e no Skype com a utilização da tecnologia voice-on-ip. Outro problema é o de como oferecer o conteúdo realmente de interesse para um determinado usuário? Alguém só estará interessado em acessar uma base de conhecimento, e ainda pagar, se os resultados atingirem as minhas espectativas. O ajuste fino e a recomendação personalizada de conteúdos são temas de pesquisa.

Como conclusão é possível ver que está sendo iniciada uma corrida para permitir que as pessoas recebem pela venda direta de seus conhecimentos. Atualmente o que mais existe é o direcionamento de possíveis interessados para sites de serviços ou de produtos. O que espero é o desenvolvimento do pagamento direto de conhecimento tal como a oferta de contos na web, páginas especializadas em determinados assuntos, consultas diretas a especialistas. Este último estágio corresponde a uma Sociedade do Conhecimento pós-industrial e, de certa forma, é um retorno à Antiguidade quando as escolas eram matidas por filósofos individuais só que desta vez com um acesso universalizado.

Share on Facebook Compartilhe esta página com seus amigos no Facebook!

Leituras

Blog. do Prof. Palazzo