Receba pelo seu
conhecimento
O trabalho humano pode ser
classificado em três etapas: a pré-industrial, a
industrial e a pós-industrial. As etapas do trabalho
são definidas, não somente pela tecnologia utilizada,
mas principalmente pelos métodos de trabalho decorrentes
do emprego desta tecnologia. O desenvolvimento do
ambiente de trabalho, incorporando as novas tecnologias
aos hábitos de produção, é um processo demorado que
requer amadurecimento. A etapa pré-industrial é
originaria da metade do século XIX, sendo caracterizada
pelo trabalho nos moldes anteriores à difusão do processamento da
informação. Cada
individuo executa as atividades que lhe são solicitadas,
encaminha outras atividades conforme seus conhecimentos,
participando de um ambiente informal de trabalho. À
medida que as idéias de otimização e de produtividade
foram tornando-se mais difundidas iniciou-se uma nova
etapa, a chamada etapa industrial. Os líderes destas
idéias foram Taylor e Ford no meio
industrial. Cada indivíduo passa a ser encarregado de
uma atividade elementar e são criados planos de carreira, trabalho padronizado e folhas de pagamento
padrão. Esta atividade é executada inúmeras vezes
sobre diferentes processos, documentos ou formulários
(ver o filme Tempos Modernos
de Charles Chaplin).
Nesta fase estão as atuais formas de publicação, anais
de conferências, diversos tipos de publicações onde os
maiores lucros são das empresas editoriais e não dos
pequenos autores. Os grandes autores realmente ganham
adequadamente mas os pesquisadores têm seus trabalhos
publicados sem auferirem nenhuma retribuição finaceira,
ver a crônica "Propriedade Intelectual: controle e
liberdade". Os
pequenos autores ou as pessoas que detem um conhecimento
interessante precisam encontrar uma forma de distribuir e
receber por este conhecimento.
O desenvolvimento da Web permitiu
uma nova abordagem ao trabalho intelectual. O emprego
desta tecnologia deu origem a uma nova etapa tornando
possível, novamente, o trabalho individualizado. Esta
etapa denomina-se pós-industrial. A mesma é
caracterizada pela flexibilidade. Os dados são mantidos
em bancos de dados e o acesso aos mesmos é realizado
através de estações de trabalho interligadas em rede.
Nesta estrutura uma pessoa trabalha no local que lhe é
mais adequado. Surge, então, o desafio de quantificar o
trabalho e como é realizar o pagamento individualmente.
Em uma Sociedade da
Informação o que deve ter
mais valor é o Conhecimento. Neste caso cada pessoa deve ganhar
proporcionalmente a quantidade e a qualidade do
conhecimento que pode oferecer bem
como em função da utilidade deste conhecimento possa
ter para os usuários. A pessoa passa a receber de acordo
com seu nível de conhecimento e de acordo com a sua
capacidade de oferecer conhecimento útil. Este é O
novo paradigma de pagamento pelo trabalho intelectual.
Mas resta o problema de consolidar esta nova forma de
reconhecimento do valor da contribuição intelectual e
de implantar formas viáveis de pagamento. Vejamos alguns
exemplos práticos.
Em uma notícia recente no
Blog me referi a uma
proposta interessante, não sei se funciona nem estou
fazendo propaganda comercial do serviço, o que me
interessa é a proposta: um pagamento pequeno, mas
multiplicado por um número potencialmente muito grande
de acessos. Aquele site está propondo o
pagamento pela redação de resumos. Há mais tempo havia me
referido a um site da Experts Exchange que oferece uma ótima oportunidade de
encontrar a solução para problemas de instalação,
programação ou debugging de sistemas. Este é
um site que permite a discussão de assunto e a
apresentação de soluções técnicas. Na época eles
tinham 1.248.209 respostas catalogadas atualmente são
1.595.756. Qual o modelo usado para conseguir estes
números? O site oferece boas respostas e quando
um especialista (isto é: você) atinge cerca de 12
respostas, aceitas pelos consultantes, passa a receber a
qualificação de especialista: Certified Expert. Alguns dos níveis são: {Master
Level, Guru Level, Sage Level, Genius Level}. Esta certificação, em uma das áreas de
competência, obtida de forma pública e independente de
fabricantes, é um fator muito bom para a empregabilidade
(ponha no currículo!) e serve como porta de entrada
(apontadores) para o acesso ao seu site, aquele site
onde você oferece os serviços pagos. Por outro lado a
empresa Expert Exchanges tem lucro com a venda
de serviços Premium para pessoas ou organizações que
necessitam de respostas rápidas e também com a
propaganda.
Poderíamos agrupar estes serviços
em dois grandes grupos: (a) aqueles que pagam por acessos
a fornecedores (propaganda) e (b) os que pagam por
serviços de conhecimento.
O primeiro grupo é o mais
difundido, por exemplo este site é suportado
(otimisticamente espero que isto ocorra em algum momento)
pelos acessos às ferramentas de busca e aos anúncios do
Adsense. Quanto mais atraente, atual, interessante
e útil for o conteúdo de umsite mais leitores
e mais receita será gerada. Imagino que a pré-seleção
de consultas relevantes ao assunto da crônica seja útil
para o leitor. É claro que um ambiente deste tipo deve
oferecer vantagens para todos os participantes. O sistema
de oferta de anúncios procura inferir quais são os anúncios
mais adequados para um dado conteúdo de site;
os anunciantes passam a ter acessos de pessoas mais
interessadas no assunto; e, finalmente, os leitores do site
recebem mais informações atualizadas sobre serviços ou
produtos de seu interesse sem serem sobrecarregados com
material desinteressante. Recentemente rolou uma
discussão no PodCast sobre o assunto de pagamento por anúncios,
O segundo grupo de serviços ainda
está menos desenvolvido mas é o mais estimulante.
Acredito que, no futuro, uma grande parte da
remuneração dos profissionais liberais será gerada
pela venda de conhecimento em pequenas quantidades para um grande
número de usuários. A idéia central é pagar pequenos
valores por pequenas quantidade de informação (em
alguns casos podem ser grandes se o valor da informação
for muito alto). Imaginem uma enciclopédia, você teria
que pagar centenas ou milhares de reais por toda a
enciclopédia mas se for possível comprar só um verbete
por alguns centavos ou reais o valor total das vendas
será, monetariamente, muito maior. O volume da receita
se dá pelo grande número de acesso (vendas) e não por
um pequeno número de vendas a um alto preço. Isto pode
ser obtido pelo acesso a um grande conteúdo de
informações adequadamente classificadas de forma a
tornar facíl o a busca da informação desejada ou por
sistemas de inteligência artificial que indicam ao
usuário a informação mais adaptada ao seu interesse,
estes são os sistemas de
recomendação.
Ainda existem problemas
tecnológicos envolvidos neste segundo caso. No primeiro
grupo de serviços, acesso a patrocinadores, os valores de centavos são agregados até formarem um total que
seja comaptível com os mecanismos atuais de
transferência de fundos. No caso do pagamento a pequenas
porções de conhecimento intelectual surge o problema da
pulverização de fornecedores e de custo em sistemas de
transferência eletrônica de fundos como o PayPal. Aqui você pode ver uma entrevista com Max
Levchin Co-fundador da PayPal. É necessária a
capacidade de trabalhar com quantias muito pequenas.
Talvez isto possa fer feito por pré-pagamento, como nos
celulares e no Skype com a utilização da tecnologia voice-on-ip. Outro problema é o de como oferecer o
conteúdo realmente de interesse para um determinado
usuário? Alguém só estará interessado em acessar uma
base de conhecimento, e ainda pagar, se os resultados
atingirem as minhas espectativas. O ajuste fino e a
recomendação personalizada de conteúdos são temas de
pesquisa.
Como conclusão é possível ver
que está sendo iniciada uma corrida para permitir que as
pessoas recebem pela venda direta de seus conhecimentos.
Atualmente o que mais existe é o direcionamento de
possíveis interessados para sites de serviços
ou de produtos. O que espero é o
desenvolvimento do pagamento direto de conhecimento tal
como a oferta de contos na web, páginas especializadas
em determinados assuntos, consultas diretas a
especialistas. Este último estágio corresponde a uma
Sociedade do Conhecimento pós-industrial e, de certa
forma, é um retorno à Antiguidade quando as escolas eram matidas por filósofos individuais só
que desta vez com um acesso universalizado.
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