A perda da memória ou
a preservação digital
Há algum tempo
fui contatado para apresentar um artigo convidado em São
Paulo, no Memorial da América do Sul, em uma
conferência de uma Sociedade de História e
Computação. Naquela época, isto faz alguns anos, a Web
não era a fonte de informações que é hoje e tive
algumas dúvidas sobre do que se trataria, afinal eu não
sou um especialista em História, nem em história da
computação e nunca tinha ouvido falar daquela
sociedade. Uns colegas disseram que era para
testemunhar... Nada disto, o assunto que esperavam que eu
discutisse era modelos de dados temporais. A
apresentação e a discussão a seguir foram muito
estimulantes pois os participantes estavam interessados
na manutenção de estados de conhecimento em diversos
pontos no tempo e em consultas do tipo: o que se
sabia sobre o Estado Novo em março de 1965?. Eu
havia trabalhado neste assunto em meu doutorado e acabava
de orientar uma tese sobre banco de dados temporais. O
mais interessante, para mim, foi a descoberta do
fenômeno de perda de
memória ligado ao
armazenamento digital. Naquela época havia pouca
evolução nas mídias de armazenamento mas fiquei
sabendo que mais de 60% dos dados, na época, do governo
americano não eram mais legíveis pois estavam
armazenados em fitas de 7 trilhas! Nesta época os discos
flexíveis de 8 já eram história e de difícil
leitura, hoje vocês já tentaram recuperara aquele
arquivo importante em um disco de 5 ¼?
Impossível! Isto é uma terrível perda de memória
digital. Estamos vivendo uma incrível situação: cada
vez temos mais conteúdos digitais disponíveis e, ao
mesmo tempo, estes conteúdos estão se tornando
ilegíveis cada vez mais rapidamente. Vejam a situação
dos CDs com fotos digitais, os melhores prometem uma
duração de cerca de 100 anos, ótimo! mas quem terá,
daqui a 100 anos, algum equipamento capaz de lê-los? Uma
das atividades daquela Sociedade de História e
Computação estava ligada à instalação e manutenção
de laboratórios em que antigas máquinas eram mantidas
operacionais para permitir a leitura de mídias
obsoletas. A idéia não é de fazer um museu mas sim um
laboratório equipado com equipamentos antigos e
utilizáveis, é possível imaginar o custo desta
aventura! Comparem esta situação com, por exemplo, os
pergaminhos do Mar Morto ou com os papiros egípcios, de
3.000 a 5.000 anos e ainda legíveis. O assunto foi
anotado como interessante, mas ficou armazenado na
memória.
Por outro lado o
histórico das páginas Web tem sido mantido, de um lado
pelas máquinas de busca que possuem um acervo gigantesco
de páginas, mas com acesso restrito às suas máquinas
de busca. Ao lado destas fontes há uma série de
atividades que procuram preservar a história da Web em
um país, região ou sobre um assunto. O acesso a estes
dados pode estar limitado por razões de privacidade mas
a história está preservada. Um exemplo bem conhecido de
arquivamento e de acesso livre é o serviço Internet Archive que provê versões antigas de sites
e arquivos disponíveis na Web (vale a pena experimentar
suas diversas possibilidades).
Recentemente, com
minhas atividades de pesquisa em bibliotecas digitais e
em editoração e revisão aberta de artigos na Web, a
idéia voltou: como vamos tratar da obsolescência das
mídias digitais? Fisicamente a preservação do acervo
em papel é missão da Biblioteca Nacional, no Brasil, e
da Biblioteca do Congresso, nos USA. Para o acervo
digital comecei a estudar o assunto a partir das palavras
chave que me recordava daquela antiga conferência, e
encontrei material muito interessante. No ano passado a
Biblioteca do Congresso Americana e a National Science
Fundation lançaram um edital ligado à Digital Information
Infrastructure and Preservation Program (NDIIPP) para tratar exatamente deste
problema. A missão desta iniciativa é:
Develop
a national strategy to collect, archive and preserve the
burgeoning amounts of digital content, especially
materials that are created only in digital formats, for
current and future generations.
Em 4 de maio de
2005 o NDIIPP e a NSF concederam US$ 3.000.000,00 para
grupos de pesquisa de10 universidades desenvolverem
estudos inovadores sobre o gerenciamento de longo termo
de informação digital. Este foi o primeiro
programa norte americano de financiamento de pesquisas em
preservação digital. Por outro lado as bibliotecas em
todo o mundo estão trabalhando sobre o problema de normas para suportar a
preservação digital, um
tema realmente interessante e de grande atualidade. Do
ponto de vista da pesquisa há enormes possibilidades
tais como o desenvolvimento de mecanismos de consulta
temporal, manipulação de metadados para a indexação
deste conteúdo, formas de armazenamento diferencial e
muitas outras possibilidades.
Qual é a
situação da preservação digital aqui no Brasil? Nas
empresas, nas Universidades? No Governo? Esta consulta nós dá uma idéia sobre a situação,
obtive 338 páginas, a mesma consulta em espanhol retorna
683 páginas e em inglês apresenta um número de cerca
de 488.000. Vamos investir nesta linha de pesquisa?
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Consultas sugeridas:
"Preservação digital",
"Preservação de livros",
"Bibliotecas digitais",
"Biblioteca Nacional",
"Biblioteca do Congresso",
"Memória digital"
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