Dr. José Palazzo Moreira de Oliveira
Professor Titular do Instituto de Informática da UFRGS

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Crônicas > 002

O segredo na pesquisa

José Palazzo M. de Oliveira
http://palazzo.pro.br
1 de Junho de 2005

A pesquisa caracterizou-se historicamente como uma atividade livre. Os pesquisadores procuravam divulgar, tanto quanto possível, suas descobertas para receberem os méritos acadêmicos. O resultado das pesquisas era considerado, na maior parte dos casos, como um bem comum da humanidade. Esta visão sempre teve limitações, algumas trágicas como o assassinato de arquitetos de tumbas egípcias, logo após a conclusão das mesmas, para que o conhecimento do segredo de sua construção não se difundisse e permitisse o saque posterior das mesmas. Invenções ligadas à guerra, também, sempre foram restritas. A pesquisa mais ampla, tradicionalmente foi considerada pública. Muitas vezes uma equipe ou pesquisador mantém um período de silêncio e discrição até que os resultados estejam suficientemente “maduros” para a publicação.

A abertura na publicação dos resultados é uma conseqüência direta do método científico que consiste em criar uma hipótese, validá-la ou negá-la por prova experimental, tirar as conclusões e divulgar os resultados bem como os detalhes das experiências. Isto é essencial para que outros pesquisadores possam verifica a correção do trabalho. Esta abertura é parte essencial da ciência. A liberdade de divulgação da pesquisa permite que sejam descobertos erros, que novas idéias sejam criadas e que a velocidade de obtenção dos resultados seja multiplicada. Outra característica é o estímulo à fertilização cruzada de idéias com a aplicação dos resultados em campos correlacionados. Isto ocorre atualmente com a aplicação de resultados de física em problemas econômicos.

A liberdade é fator essencial para a pesquisa, nas Universidades é o elemento básico. Sem a liberdade na pesquisa e na prática do ensino a sociedade acaba sofrendo as conseqüências. A Universidade deverá assegurar a plena liberdade de estudo, pesquisa, ensino e expressão, permanecendo aberta a todas as correntes de pensamento, isto é conhecido como “Liberdade de Cátedra”. Vou citar dois contra exemplos onde a perda da liberdade causou ou causa efeitos muito negativos. O “Caso Lisenko”: quando, em 1948, Stalin – apoiado pelo ministro da Agricultura Lisenko – declarou as teorias da hereditariedade de Mendel como burguesas e banidas da URSS, décadas depois a agricultura soviética sofre as conseqüências. O segundo é atual e ocorre no regime oponente ao anterior, a liberdade às pesquisas em células tronco é grande pois o tema está sendo tratado com bases não científicas e com preconceitos religiosos, nossa saúde pagará o preço quando não tivermos as possíveis tecnologia para tratar doenças degenerativas, entre outras. Os dois casos evidenciam que a falta de liberdade trás resultados negativos. Por outro lado só a liberdade de pesquisa não é suficiente, é preciso, ainda a liberdade de difusão da mesma.

A Publicação Livre, que tratei na crônica anterior, estimula a difusão do conhecimento, mas uma tendência muito forte se contrapõe a esta abertura: os interesses econômicos ligados à pesquisa tecnológica. Esta é outra, e mais insidiosa, forma de tirar a liberdade. Os fatores negativos surgem em duas frentes: na primeira desaparece o financiamento para as pesquisas não engajadas no desenvolvimento econômico (mata-se a pesquisa fundamental ou não aplicada), na segunda frente são criados empecilhos para a publicação de resultados de trabalhos com parceiros industriais. A pesquisa está, aos poucos, sendo privatizada. Um artigo muito interessante da Wired News chama-se “When Secrecy Stops Science”, o título diz tudo! A privatização da pesquisa está tornando muitos resultados de trabalhos de investigação indisponíveis para a comunidade acadêmica. A tendência de muitos pesquisadores, de esconder ou retardar ao máximo seus segredos científicos, dado o interesse comercial nos eventuais resultados, tem preocupado cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, e da Associação Americana para o Progresso da Ciência, AAAS. A ponto de organizarem uma conferência para discutir o assunto. Denominada: Secrecy in Science, a conferência se realizou no dia 29 de março de 1999, no campus do MIT, em Cambridge, EUA. Mais recentemente, em um artigo publicado na Folha on Line de janeiro de 2002, lê-se: “Nada menos que 47% dos geneticistas declararam ter ficado pelo menos uma vez, nos últimos três anos, sem os dados que haviam pedido a colegas, após ler seus artigos”.

O nível de segredo na difusão dos resultados da pesquisa não é dividido entre abertura total ou segredo total, é muito mais complexo. O nível de segredo na Ciência pode ser classificado em:

1. Ciência Secreta, quando mesmo a existência do projeto é sigilosa.

2. Ciência Restrita: quando a publicação dos resultados está sujeita a limitações estritas em relação ao tempo ou aos detalhes. Muitas pesquisas ligadas ao governo e a empresas está incluída nesta categoria.

3. Ciência Circunspecta: os pesquisadores só publicam os resultados quando o projeto está concluído ou quase. Uma boa parte da pesquisa acadêmica se encontra aqui.

4. Ciência Aberta: trata dos projetos que se desenvolvem de acordo com um esforço, ainda embrionário, para definir um Protocolo Aberto para a Ciência (Open Science Protocol). O objetivo deste protocolo é atingir, na Ciência, algo similar ao que já conseguimos com as regras de publicação e distribuição do software livre.

 Como conclusão gostaria de pedir que cada um de nós fizesse uma análise profunda sobre o nível de segredo aplicado aos projetos em que participamos, aos projetos de nossas universidades e de nossas empresas. Após esta análise será mais fácil ver se o eventual segredo está facilitando e aumentando a qualidade da pesquisa ou se está apenas tentando aumentar o lucro de um grupo. Minha resposta é que a liberdade de pesquisa e de difusão dos resultados não só melhora a qualidade e aumenta a quantidade dos resultados como aumenta o resultado econômico global para a Sociedade, pois permite a entrada de mais concorrentes no mercado. Estes concorrentes levarão à redução dos custos para os consumidores, a melhora dos produtos devido à livre competição, e ao aumento das possibilidades de trabalho e de renda. No final os resultados serão muitos maiores do que se a pesquisa ficasse fechada no âmbito de uma empresa.

Para a saber mais

Conferência Secrecy in Science, Exploring University, Industry and Government Relationships; Aumenta o segredo na informação científica, Folha on Line, 22-01-2002; When Secrecy Stops Science, Wired News, Mar. 29, 1999.

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Leituras

Blog. do Prof. Palazzo