O segredo na pesquisa
A pesquisa
caracterizou-se historicamente como uma atividade livre.
Os pesquisadores procuravam divulgar, tanto quanto
possível, suas descobertas para receberem os méritos
acadêmicos. O resultado das pesquisas era considerado,
na maior parte dos casos, como um bem comum da
humanidade. Esta visão sempre teve limitações, algumas
trágicas como o assassinato de arquitetos de tumbas
egípcias, logo após a conclusão das mesmas, para que o
conhecimento do segredo de sua construção não se
difundisse e permitisse o saque posterior das mesmas.
Invenções ligadas à guerra, também, sempre foram
restritas. A pesquisa mais ampla, tradicionalmente foi
considerada pública. Muitas vezes uma equipe ou
pesquisador mantém um período de silêncio e
discrição até que os resultados estejam
suficientemente maduros para a publicação.
A abertura na
publicação dos resultados é uma conseqüência direta
do método científico que consiste em criar uma
hipótese, validá-la ou negá-la por prova experimental,
tirar as conclusões e divulgar os resultados bem como os
detalhes das experiências. Isto é essencial para que
outros pesquisadores possam verifica a correção do
trabalho. Esta abertura é parte essencial da ciência. A
liberdade de divulgação da pesquisa permite que sejam
descobertos erros, que novas idéias sejam criadas e que
a velocidade de obtenção dos resultados seja
multiplicada. Outra característica é o estímulo à
fertilização cruzada de idéias com a aplicação dos
resultados em campos correlacionados. Isto ocorre
atualmente com a aplicação de resultados de física em
problemas econômicos.
A liberdade é fator
essencial para a pesquisa, nas Universidades é o
elemento básico. Sem a liberdade na pesquisa e na
prática do ensino a sociedade acaba sofrendo as
conseqüências. A Universidade deverá assegurar a plena
liberdade de estudo, pesquisa, ensino e expressão,
permanecendo aberta a todas as correntes de pensamento,
isto é conhecido como Liberdade de Cátedra.
Vou citar dois contra exemplos onde a perda da liberdade
causou ou causa efeitos muito negativos. O Caso
Lisenko: quando, em 1948, Stalin apoiado
pelo ministro da Agricultura Lisenko declarou as
teorias da hereditariedade de Mendel como burguesas e
banidas da URSS, décadas depois a agricultura soviética
sofre as conseqüências. O segundo é atual e ocorre no
regime oponente ao anterior, a liberdade às pesquisas em
células tronco é grande pois o tema está sendo tratado
com bases não científicas e com preconceitos
religiosos, nossa saúde pagará o preço quando não
tivermos as possíveis tecnologia para tratar doenças
degenerativas, entre outras. Os dois casos evidenciam que
a falta de liberdade trás resultados negativos. Por
outro lado só a liberdade de pesquisa não é
suficiente, é preciso, ainda a liberdade de difusão da
mesma.
A Publicação Livre,
que tratei na crônica anterior, estimula a difusão do
conhecimento, mas uma tendência muito forte se
contrapõe a esta abertura: os interesses econômicos
ligados à pesquisa tecnológica. Esta é outra, e mais
insidiosa, forma de tirar a liberdade. Os fatores negativos surgem em duas frentes:
na primeira desaparece o financiamento para as pesquisas
não engajadas no desenvolvimento econômico (mata-se a
pesquisa fundamental ou não aplicada), na segunda frente
são criados empecilhos para a publicação de resultados
de trabalhos com parceiros industriais. A pesquisa está,
aos poucos, sendo privatizada. Um artigo muito
interessante da Wired News chama-se When
Secrecy Stops Science, o título diz tudo! A
privatização da pesquisa está tornando muitos
resultados de trabalhos de investigação indisponíveis
para a comunidade acadêmica. A tendência de muitos
pesquisadores, de esconder ou retardar ao máximo seus
segredos científicos, dado o interesse comercial nos
eventuais resultados, tem preocupado cientistas do
Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, e da
Associação Americana para o Progresso da Ciência, AAAS. A ponto de organizarem uma conferência para
discutir o assunto. Denominada: Secrecy in Science, a
conferência se realizou no dia 29 de março de 1999, no
campus do MIT, em Cambridge, EUA. Mais recentemente, em
um artigo publicado na Folha on Line de janeiro de 2002,
lê-se: Nada menos que 47% dos geneticistas
declararam ter ficado pelo menos uma vez, nos últimos
três anos, sem os dados que haviam pedido a colegas,
após ler seus artigos.
O nível de segredo na
difusão dos resultados da pesquisa não é dividido
entre abertura total ou segredo total, é muito mais
complexo. O nível de segredo na Ciência pode ser
classificado em:
1. Ciência Secreta, quando mesmo a
existência do projeto é sigilosa.
2. Ciência Restrita: quando a
publicação dos resultados está sujeita a
limitações estritas em relação ao tempo ou aos
detalhes. Muitas pesquisas ligadas ao governo e a
empresas está incluída nesta categoria.
3. Ciência Circunspecta: os
pesquisadores só publicam os resultados quando o
projeto está concluído ou quase. Uma boa parte da
pesquisa acadêmica se encontra aqui.
4. Ciência Aberta: trata dos projetos
que se desenvolvem de acordo com um esforço, ainda
embrionário, para definir um Protocolo Aberto para a
Ciência (Open Science Protocol). O objetivo
deste protocolo é atingir, na Ciência, algo similar
ao que já conseguimos com as regras de publicação
e distribuição do software livre.
Como
conclusão gostaria de pedir que cada um de nós fizesse
uma análise profunda sobre o nível de segredo aplicado
aos projetos em que participamos, aos projetos de nossas
universidades e de nossas empresas. Após esta análise
será mais fácil ver se o eventual segredo está
facilitando e aumentando a qualidade da pesquisa ou se
está apenas tentando aumentar o lucro de um grupo. Minha
resposta é que a liberdade de pesquisa e de difusão dos
resultados não só melhora a qualidade e aumenta a
quantidade dos resultados como aumenta o resultado
econômico global para a Sociedade, pois permite a
entrada de mais concorrentes no mercado. Estes
concorrentes levarão à redução dos custos para os
consumidores, a melhora dos produtos devido à livre
competição, e ao aumento das possibilidades de trabalho
e de renda. No final os resultados serão muitos maiores
do que se a pesquisa ficasse fechada no âmbito de uma
empresa.
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